sábado, 22 de julho de 2017

Entendendo as Fylgjas





Fylgjur (plural de Fylgja) são descritas como espíritos guardiões sobrenaturais, ligados a uma linha familiar, dito para acompanhar uma pessoa ao longo da vida. Como muitos conceitos na mitologia nórdica, a Fylgja às vezes é difícil de compreender ou explicar. Fylgja, traduzido do Nórdico Antigo, significa "alguém que acompanha". Elas podem aparecer de duas maneiras.


A primeira é uma forma animal, que pode ser descrita como uma extensão de um aspecto ou característica de uma determinada família. Eles parecem encarnar o espírito, e guiar os que eles escolhem, ou fazer obras para eles.


Maria Kvilhaug traduziu e resumiu o trabalho acadêmico do professor Else Mundal sobre o tema "Fylgjemotiva i norrøn litteratur" (Fylgjur Motifs in Norse Literature).


"O tema animal fylgja às vezes é misturado com o tema húgr. [Húgr (masculino singular) significa" intenção "," desejo "," pensamento "," alma "," coração "e parece ter sido uma parte da alma humana que poderia se mover para fora do corpo em forma de animal] Manna hugir ["as intenções dos homens"] às vezes substitui o termo manna fylgjor [os "seguidores" dos homens] e geralmente aparece em forma de lobos. Os lobos, associados a uma paixão e desejos ferozes (ou ganância e fome) estão intimamente ligados ao húgr. Os outros animais aparecem como manna fylgjor ".

A mulher de branco



A segunda descrição de "Fylgjemotiva i norrøn litteratur" explica como Fylgjur são entidades femininas. Eles atuam como um guardião de uma família e se prende a um indivíduo ao nascer, seguindo as gerações por uma certa linhagem. É provável que representem uma mãe ancestral. Sabemos que as mães foram comemoradas, sendo os espíritos ancestrales femininos descritos como "Dísir" (que significa "Senhoras"). Esses espíritos femininos estão ligados a uma família de que são ancestrais matriarcais, e podem ser benéficos ou malévolos. O Dísir será discutido e explorado em seu próprio artigo no futuro próximo. 

O termo Dísir abrange um espectro mais amplo dos espíritos femininos e seres dentro da mitologia nórdica, mas a Fylgja é especificamente um espírito que guia e protege uma pessoa, e está vinculado com seu destino e "hamingja". É amplamente pensado que uma Fylgja pode abandonar o seu mortal escolhido se seu comportamento for pobre, perverso e desconsiderasse o nome da família.


Maria Kvilhaug acrescenta:


"Uma fylgja é uma entidade sobrenatural feminina que atua como um espírito de guarda para o clã, e especialmente para o chefe do clã. Eles também estavam ligados a indivíduos, mas eram imortais e parecem estar presos a linhagens particulares seguindo uma pessoa de cada geração. Acredita-se que elas representam os espíritos das mães ancestrais, uma parte da adoração materna ancestral que conhecemos que existia entre os Vikings.


Todo ser humano pode ter uma ou mais fylgja. Alguns são visíveis enquanto outros são invisíveis. Os seguidores são portadores da fortuna de um indivíduo ou do clã. Ela aparece frequentemente em sonhos, mas também em visões ".


Fylgjur nas Sagas


Esses espíritos aparecem na história de Burnt Njál, da Saga Islandesa de Njál. Um conto de feudos e vinganças, pensa-se que este trabalho data de 1270 à 1290. Na publicação de 1900 desta saga, Sir George Webbe Dasent, descreve "The Superstitions of the Race" em sua introdução às obras e menciona o papel da Fylgja na sociedade destaque neste conto. 


"O Norte tinha muitas superstições. Eles acreditavam em grandes gigantes e gigantes ruins, em duendes escuros e elfos brilhantes, em seres super-humanos que cultivavam o amplo golfo que existia entre ele e os deuses. Eles também acreditavam em fantasmas e Espíritos guardiões, que seguiram pessoas particulares e pertenciam a certas famílias - uma crença que parece ter surgido do hábito de considerar o corpo e a alma como dois seres distintos, que em determinados momentos tomaram cada um uma forma corporal separada. Às vezes, o espírito guardião ou a fylgja tomaram uma forma humana; em outros, a sua forma tomou a de um animal que se imaginava para pressagiar o caráter do homem a quem pertencia. Assim, torna-se um urso, um lobo, um boi e até uma raposa, nos homens. A fylgjur das mulheres gostavam de tomar a forma de um cisne. 

Guia espiritual 



Ver a próprio fylgja é desafortunado, e muitas vezes um sinal de que um homem estava "fey" ou condenado pela morte. Então, quando Thord Freedmanson diz a Njal que ele vê a cabra revoltando na sua "cidade" de Bergthorsknoll, o homem antecipado lhe diz que ele viu sua própria fylgja e que ele deve estar condenado a morrer. As naturezas mais finas e mais nobres muitas vezes viram os espíritos guardiões dos outros. As naturezas mais finas e mais nobres muitas vezes viram os espíritos guardiões dos outros.”


Uma página da saga Njál's



Não só Fylgjur é mencionado nesta saga, mas seu papel como "busca" também aparece quando são descritos como personagens visitantes no conto em seus sonhos.

Esses seres também aparecem na Saga Ljosvetninga, e são usados em uma forma de guerra espiritual. Se um personagem tivesse uma Fylgja mais poderosa do que a pessoa que cruzava seu caminho, esse indivíduo sofreria algum tipo de infortúnio. Parece que este é o resultado de a sua própria Fylgja não ser tão forte, ou não ser capaz de defendê-los do inimigo.


Fylgja, busca e feitiçaria


Nas superstições anglo-saxônica e posterior inglesa, um animal Fylgja tornou-se conhecido como uma busca. Se esta era originalmente a mesma criatura que aparece na literatura Islandesa, ou se este é um conceito semelhante, é difícil dizer. Uma busca na tradição de feitiçaria britânica é um espírito animal, ou animal vivo, que permitiria que ele fosse "dono" para viajar com ele ou enviá-lo em recados para o funcionamento mágico ou viagens espirituais.


É mais comum ver a busca da bruxa como um familiar; um animal físico que ajuda o praticante em seus trabalhos. Muitos contos populares descrevem como esses animais também podem ser a bruxa transformada, e lesões físicas sofridas pelo animal combinando com as da bruxa, uma vez que ela é restaurada para a forma humana. Essa mudança de forma também apareceu como um conceito nórdico.

Bruxas identificando seus espíritos familiares 



Na moderna reconstrução da espiritualidade pagã, um Fylgja pode ser visto como um espírito ou animal feminino assistente, que pode visitá-lo em sonhos, ou aparecer se você estiver praticando Seiðr, trabalhando em transe ou indo em uma jornada espiritual. As pessoas às vezes sentem que suas Fylgja correram na frente deles quando viaja em um sentido físico.

Cuidado é aconselhável para os curiosos que desejam descobrir esses seres. Seus poderes estão bem documentados nas Sagas Islandesas, dizendo como eles podem conferir hamingja ou sorte a quem eles freqüentam, mesmo ajudando a moldar o destino de uma pessoa. Se você desagradá-los, eles podem deixá-lo, ou os benefícios que eles trazem podem ser revertidos.



[Nota de tradutor] Esse artigo me lembrou uma música. Vou deixar ela aqui com vocês <3 



 


Referências:

 Robert Kellog & Jane Smiley (Introduction), The Sagas of Icelanders - ISBN - 978-0141000039
 The Fylgjur - Guardian Spirits & Ancestral Mothers, Maria Kvilhaug
Thorsteinn Gylfason (Introduction), Njál's Saga - ASIN - B00IGYQC0O
The Story of Burnt Njal; From the Icelandic of the Njals Saga, By the Late Sir George Webbe Dasent - ASIN - B0095JTHZG

quinta-feira, 20 de julho de 2017

A BRUXARIA NÓRDICA NO FOLCLORE



Nas últimas décadas muitos temas outrora considerados exóticos ou excêntricos tornaram-se prolíferos e de grande interesse da comunidade acadêmica. A bruxaria tem sido um desses aspectos humanos que vem suscitando grande interesse e discussões entre os historiadores. A magia sempre estivera fortemente presente nas terras ao norte da Europa e praticado por mulheres, como demonstram os avanços da arqueologia em que muitas sepulturas femininas eram adornadas por bastões, esculturas de animais totêmicos (ursos e lobos), pingentes e plantas alucinógenas (Langer, 2010, p. 180). Portanto, considerando a feiticeira em seu sentido mais simplório, alguém que se serve de práticas ritualísticas mágicas com o intuito de causar destruição e felonia a outrem, discorremos sobre algo advindo desde a Era Viking (793-1066 d. C.) e mesmo anteriormente. Todavia, ao referirmos sobre a resignificação dessas práticas mágicas antigas e dessa personagem, a feiticeira nórdica, mescladas a sua demonização, metamorfoses e reuniões noturnas para fins orgiásticos e canibalísticos (os sabás, figura 1), estamos nos referindo a uma ideia desenvolvida por uma elite clerical e colocada em prática em fins do século XIII por inquisidores que somente penetrará com força na Escandinávia a partir do século XIV e que será difundida por quase 300 anos por intelectuais católicos e protestantes. Nas últimas décadas o estudo da Bruxaria tem passado por inúmeros momentos e grandes saltos em pesquisas e sua faceta no contexto escandinavo vem ganhando força também. A Bruxaria na Escandinávia se concentra basicamente no período da pós-reforma, auxiliado por uma maior gama de documentos, o número de perseguições e a delineação mais clara da influência continental. Recuando à Idade Média central, aspectos da bruxaria e feitiçaria ali detectados quase sempre são englobados na confortável explicação de uma sobrevivência do paganismo nórdico. A temporalidade compreendida entre o mundo da Era Viking e a baixa idade média se demonstra essencial, pois liga de um lado a outro dois extremos da história nórdica, em que a simples feiticeira se ressignifica para a imagem complexa da bruxa, imersa no diabolismo pensado pelos teólogos e figura representativa da heresia (Mitchell, 1997, p. 81). Se na Noruega anterior ao séc. XIV uma mulher acusada de bruxaria era exilada, agora ela recebe a pena capital. Mesmo após o retroceder das perseguições na Europa, a Escandinávia ainda se veria palco de intensos julgamentos em fins do século XVII, como o notório caso da cidade sueca de Mora, em que mesmo tardiamente, muitos elementos tradicionais da crença em bruxas emergiram, como o rapto de crianças à Blåkulla, cujo diabo lá se encarregaria de presidir um sabá (Russel, 2008, p. 128, figura 1). Esse período nebuloso resultou, além de julgamentos e execuções, relatos e representações populares sobre essas mulheres dotadas de malignidade. 



Figura 1: Bruxas participando de sabá na presença do diabo. Igreja de Yttergran, Suécia, século
XV.

 

Muitos contos foram produzidos e perpetuados, sendo um acervo extremamente rico sobre o imaginário escandinavo. O colecionador de manuscritos islandês Árni Magnússon fora um dos precursores, no século XVIII, na catalogação de contos e lendas tradicionais, outrora, sempre tratados como fontes inferiores em relação às sagas. Antes do advento dos irmãos Grimm e a explosão pelo interesse nos contos tradicionais, estudiosos como P. C Asbjørnsen e Jørgen Engebretsen Moe, publicaram Norske Folkeeventyr (Contos Populares Noruegueses), além do escritor e bibliotecário islandês Jón Árnason, que depois de sua morte em 1888, teve sua gigantesca coleção de contos publicados entre 1954-1961. Assim como as sagas islandesas produzidas na Idade Média Central geram acalorados debates sobre as limitações dessas fontes e seu papel etnográfico confiável (Langer, 2010, p. 195), contos e canções folclóricas também passam pela mesma discussão, descartados por estudiosos que tendem a percebê-los como manifestações puramente literárias de gênios populares. O historiador precisa manejar essas múltiplas fontes. Afinal, assim como as sagas, elas representam vestígios únicos, em que suas crenças e religiosidades estão imbuídas como verdadeiros reflexos da sociedade. Autores como Daniel Sävborg atestam a dificuldade de se trabalhar com o folclore, porém reafirmam sua importância como fontes cuja oralidade pode lançar dados demonstráveis. Contos folclóricos não devem ser ignorados, até pela quantidade de relatos disponíveis em universidades e museus escandinavos. As imagens da bruxa nos contos estão relacionadas com o cotidiano da população e de seus medos. Em “A Mulher do Sacerdote que se transformou em cavalo”, coletado em 1932 de um informante nascido ao findar da primeira metade do XIX (Gonzáles, 2008, p. 70) revela uma variável em muitos contos: o medo da bruxa estar próxima ou dentro do âmbito familiar, a exemplo do conto em que o sacerdote descobre a perfídia da própria esposa. A exemplo do Islandês “A cavalgada da bruxa”, muitas bruxas são retratadas como mulheres de sacerdotes, como o folclore islandês registra sobre um homem bom e íntegro cuja bela e jovem esposa desaparece em todas as noites de natal. Nesse episódio é retrato uma ação recorrente entre as bruxas escandinavas que é cavalgar homens. Voo e montarias são desde sempre retratados em poesias, prosa e imagens, demonstrando ser uma verdadeira obsessão germânica. Muitos contos de tradição popular retratam mulheres cavalgando em objetos e animais, tais como lobos e ursos, e principalmente homens. Uma tradição escandinava que une desde a imagem no monumento Hunnested, datada de 975-1050 d. C. na Suécia, em que uma mulher cavalga um lobo e o doma com serpentes, aos contos do findar do período moderno em que perigosas mulheres cavalgam em seus maridos bons e religiosos. Cavalgar é retratado como o maior poder de uma bruxa e denota bem o medo da inversão dos papeis sociais entre homens e mulheres, principalmente se a experiente montadora for a esposa de um religioso. Em A Cavalgada da bruxa, a esposa de um pastor monta em um homem e, em alta velocidade, se dirige a uma reunião com doze mulheres e um religioso, e lá se gaba da forma como chegou, pois como atesta os demais membros, cavalgar um homem é a maior forma de poder que se pode desenvolver na bruxaria. No conto “Loft o Feiticeiro”, Loft é um jovem que se instrui nos estudos mágicos e “cavalga como fazem as bruxas” (Gonzáles, 2008, p. 88). Assim como Loft o folclore islandês legou relatos e contos cuja predominância de feiticeiros e bruxos são marcantes. Os Magos das Ilhas Westman e Calvagadas das Bruxaspossuem homens como mestres da magia e encontra paralelo com a especificidade com que a Islândia vivenciou a bruxaria e sua repressão na modernidade. Embora não seja a bruxaria exclusivamente prática feminina, foram elas as mais julgadas e condenadas em toda Europa, sendo que na Alemanha ocidental as ondas persecutórias entre 1561 e 1684 resultaram 1050 mortes, sendo 328 homens um dos maiores índices de participação masculina. A Islândia se demonstra uma região atípica, afinal, entre 1554 a 1720, dos 125 processos de bruxaria, somente 9 acusados eram mulheres. Magos e feiticeiros são os personagens recorrentes no imaginário islandês, mesmo quando a  personagem principal é uma mulher, sua participação se concretiza mais pela astúcia e inteligência que pelo magismo (Os Magos das Ilhas Westman). Outra característica do folclore islandês e seus relatos é a poucain cidência do pacto diabólico. Embora os tratados em toda Escandinava se demonstrassem críticos diante das acusações de pacto diabólico, os ensaios demonológicos sobre o tema eram pouco difundidos e os julgamentos breves. Diferentemente, Suécia e Dinamarca, esta a partir de 1617, se demonstraram mais engajadas nesse tipo de acusação (Mitchel, 2008 p. 126). Os contos folclóricos transmitidos são fortes reflexos da persistência popular na crença na aliança entre homens e o diabo durante todo o período moderno, mesmo que feitiçaria, diabolismo e apostasia já declinassem no seio da elite. Os religiosos são personagens frequentemente acusados de pacto demoníaco e o folclore norueguês é exemplar ao destacar um sacerdote histórico. O erudito Sæmundr Fróði (1056- 1133), estudioso do povo e dos reis noruegueses é o símbolo de sacerdote que poderia prever o futuro, detectar bruxas, romper feitiços e realizar grandes feitos. Sabedoria e magismo adquiridos mais pelos estudos das línguas clássicas que pela santidade. Nos relatos oitocentistas noruegueses, Sæmundr Fróði funda Escolas Negras e utiliza seus conhecimentos mágicos em situações cotidianas e conflitos de matizes econômica (colheitas, animais), sociais (brigas com vizinho, pastores) e mesmo religiosa (em alguns contos Sæmundr engana várias vezes o diabo ou é retradado como seu vassalo). Sæmundr Fróði fora um dos poucos islandeses a ter uma educação no exterior, na França ou na Alemanha, e ao regressar à Islândia teria criado a Escola Negra. Essas Escolas Negras do Diabo, na Alemanha conhecidas como Juppítersskóli, de acordo com os relatos existiam nas universidades medievais e formavam bruxos e exorcistas. Eram nessas escolas que os alunos recebiam o Cyprianus, livro muito difundido na Escandinávia, e que ensinava práticas de feitiçaria maléfica ou de proteção e cura. Para adquiri-lo , assim como outros livros supostamente escritos por Moisés ou Salomão, o estudante deveria renunciar ao batismo e entregar a alma ao diabo. Extremamente popular na Escandinávia, os feitiços cyprianus eram utilizados no seio rural por curandeiros que se valiam da típica magia germânica: remédios populares, orações e feitiços rituais. Os contos confirmam a tese de Stephen Mitchell, em que diferentemente dos clérigos ou da elite, é a população que abraça a ideia do Pacto Diabólico. Somente a partir de meados da Idade Moderna o pacto é amplamente utilizado em processos judiciais no mundo nórdico, principalmente na Dinamarca e Suécia. Mesmo em lugares em que a crença no pacto diabólico teve pouca ressonância vemos casos tardios de crenças em feitiçaria e pacto demoníaco, como na Islândia, em que um homem foi condenado em 1685 por um pacto realizado durante o sono (Mitchell, 2008, p. 134). As bruxas e feiticeiras são, sobretudo, causadoras de problemas e afetam principalmente as atividades do cotidiano. Em uma sociedade campesina, em que cuidar dos animais, preparar as bebidas e a manteiga se demonstram de grande importância econômica, muitas das acusações se davam por conflitos rotineiros sem explicações. A morte súbita de uma criança, a perda de um animal, baixa produtividade agrícola, não havia infortúnio que não pudesse ser imputado a algum indivíduo próximo (Thomas, 1991 p.433). Comumente é a bruxa da vila que se utiliza da magia para roubar leite ou estragar alimentos, ou prejudicar atividades comumente realizadas por mulheres. Em algumas sagas, as feitiçarias são responsáveis por mudanças climáticas, assim prejudicando fazendas de inimigos ou adoecer o rocim, o cavalo de tração (Langer, 2009, p.73-74). A bruxaria na Escandinávia e a imagem das bruxas se configuram como um verdadeiro e prolífero campo de pesquisa, afinal, suas representações se demonstram variadas (metamorfoses, casamento entre camponeses e maras dinamarquesas, magos). Recorrer ao folclore torna-se de grande ajuda para a compreensão da personagem bruxa e seu domínio no inconsciente coletivo dos homens do passado, cujas crenças e fé nunca estiveram tão distantes para o
pragmático estudioso de hoje. 


Autor: Maykon Jansen (Graduando em História pela UFMA)


Referências:

GONZÁLEZ, Edorta. Leyendas y Cuentos Vikingos. Madrid: Miraguano, 2008.
LANGER, Johnni. Galdr e feitiçaria nas sagas islandesas.
Brathair 9(1), 2009, pp.
66-90. Disponível em:
https://ufpb.academia.edu/JohnniLangerLANGER, Johnni. Seiðr e magia na Escandinávia Medieval. Signum 11(1), 2010,
pp. 177-202. Disponível em:
https://ufpb.academia.edu/JohnniLangerMITCHELL, Stephen. Blåkulla and Its Antecedents: Transvection and
Conventicles in Nordic Witchcraft.
Alvíssmál n. 7, 1997.
MITCHELL, Stephen A. Pactum cum diabolo and Nordic witchcraft. In:
TULINUS, Torfi (Ed.).
Galdramenn: galdrar og samfélag á miðöldun.
Reykjavík: Hugvísindastofnun Háskola Íslands, 2008, pp. 121-145.
RUSSEL, Jeffrey B; BROOKS, Alexander.
História da Bruxaria. São Paulo: Ed.
Aleph, 2008.
THOMAS, Keith.
Religião e Declínio da Magia: crenças populares na Inglaterra,
século XVI e XVII
. São Paulo: Companhia das Letras, 1991.

 




quarta-feira, 19 de julho de 2017

PROCEDIMENTO PARA COLHER ERVAS: Segundo os papiros mágicos gregos.



Entre os egípcios, ervas são sempre obtidas desta forma: O herbalista primeiro purifica seu corpo, aspergindo sobre si o *Natron e fazendo fumigações de ervas junto da resina de pinheiros, enquanto circunvaga o local por 3 vezes. Então, após queimar o Kyphi e verter uma libação de leite enquanto faz as orações, ele retira a planta invocando-a pelo nome do daemon cuja a erva está dedicada, e chamando para que ela seja mais efetiva aos intentos para que ela está sendo adquirida.
A invocação do herbalista, que ele fala sobre as ervas, costumeiramente no momento da colheita, é a que segue:
“Você que foi semeada por Kronos, você que foi concebido por Hera, você que foi mantido por Ammon, você que foi parido por Isis, você que foi nutrido por Zeus, Deus da Chuva, você cujo crescimento foi dado por Helios e Drosos.
Você é o orvalho de todos os Deuses, você é o coração de Hermes, você é o sêmen dos Deuses Primordiais, você é o Olho de Helios, você é a Luz de Selene, você é a paixão de Osiris, você é a beleza e gloria de Ouranos, você é a alma de Osiris ’Daemon que se revela em todos os locais, você é o espirito de Ammon. Tal qual você tem exaltado Osiris, exalte a ti mesmo e levantasse junto a Hélios a cada dia.
Sua altura é igual ao zênite de Helios, suas raízes são como as profundezas, mas seu poder está no coração de Hermes, suas fibras são os ossos de Mnevis (o touro sagrado de Heliopolis), e suas flores são os olhos de Horus, suas sementes são o semem de Pã. Eu estou lavando você com as resinas tal qual lavo os Deuses, mesmo que faço isto para minha própria saúde. Seja você também limpa pelas preces e dê nos poder tal qual Atena e Ares nos dão.
Eu sou Hermes! Eu convoco você por Agathe tyche e Agathodaimon, ambos nessa hora propicia e neste propicio dia que afeta todas as coisas.”
Após dizer isso, o herbalista enrola em linho puro (não tingindo) o que foi colhido.
No local onde estavam as raízes, o herbalista colocará sete sementes de trigo e igual numero de centeio, misturados com mel. Após verter no local que ocorreu a colheita ele parte. 

Fonte: PGM IV. 2967 - 3006

Tradução: Jaiadeva Gosvami Seus  

segunda-feira, 17 de julho de 2017

MANDRÁGORA: A PLANTA DAS BRUXA

O uso de plantas para a alimentação, vestuário, e magia acompanha o ser humano desde a pré-História. Algumas dessas plantas como, por exemplo, o linho foi utilizado como óleo e suas sementes eram essenciais para o alimento; de sua fibra extraia-se um tecido resistente e macio e com suas folhas e óleos eram elaborados poderosos remédios e feitiços. Mas não somente o linho, o alho-poró, a arruda, o alecrim entre outras inúmeras plantas estavam presentes na elaboração de poções mágicas. No entanto, algumas plantas conseguiram maior notoriedade do que outras ocupando desde a Antiguidade até hoje um lugar de destaque quando o assunto em questão é “plantas mágicas”. Essas plantas que faziam parte dos unguentos que as bruxas utilizavam para besuntarem seus corpos e, assim poderem voar para o sabbath, até hoje são utilizadas como remédios homeopáticos e fitoterápicos e também alopáticos, já que alguns alcaloides são empregados em anestésicos de comprovada eficácia e, em contrapartida são também poderosos e letais venenos. Atropa beladona, Atropa mandrágora, Hyoscyamus niger e Nigella sativa formavam realmente um “quarteto fantástico” quando utilizados para a elaboração de filtros amorosos, poções para aumento ou perda da virilidade,proporcionar voos noturnos mágicos, aliviar e proporcionar dores, trazer à vida e condenar à morte. Todas estas plantas começaram a ser utilizadas na Dinamarca (por influência da Alemanha) a partir do século XIV, sendo desde então conhecidas em toda a Escandinávia.

Figura 1: Mandrágora, Manuscrito Tacuinum Sanitas, séc. XV; Figura 2: Mandrágora eNigella, manuscrito Harley 3736, f. 59r, séc. XV

A primeira planta, conhecida popularmente como beladona (Atropa beladona), “bela mulher” utilizada pelas mulheres desde a Baixa Idade Média para dilatar as pupilas ao pingarem o suco das bagas negras nos olhos e conferirem a esses um brilho especial e, assim realçarem a sua beleza era também muito usada como analgésico e antitérmico potente e também para envenenamentos já que uma alta dosagem conduziria à morte. Até hoje utilizase a beladona como um dos medicamentos homeopáticos mais populares. A segunda planta, considerada a erva das bruxas por excelência é a mandrágora (Atropa mandrágora). Sua imagem é encontrada em vários manuscritos medievais e renascentistas e sempre é mencionada como um dos ingredientes principais para o preparo de todo tipo de poção ou feitiço. A presença da mandrágora é registrada na literatura desde a Antiguidade, em poemas medievais, na Bíblia, nas tragédias shakespearianas e no cinema. Na série de filmes de Harry Potter há uma cena onde a professora vai ensinar os alunos a arrancarem a raiz da mandrágora. A cena é divertida e representa o mito medieval sobre a planta: a mandrágora grita ao ser arrancada da terra e pode levar quem ouve esses gritos à loucura. A sua raiz possui forma humana e cresce abaixo dos patíbulos onde cairia o sêmen dos enforcados e a alma destes passaria para a planta – que segundo a tradição medieval deveria ser amarrada a planta na cauda de um cão e em seguida dar pancadas na cabeça deste (figuras 1, 2, 3 e 4). Quando o animal finalmente corria agonizante, a raiz era arrancada e a alma do enforcado libertava-se. Acreditava-se que se um casal dividisse a raiz da mandrágora e cada um ingerisse um pedaço dela jamais se separariam. Essa cena está imortalizada no filme Conquista Sangrenta, de 1985 dirigido por Paul Verhoeven e estrelado por Rutger Hauer. A raiz da mandrágora por ter a forma semelhante ao ser humano foi alvo de várias crenças, inclusive de que ela seria o ancestral vegetal do homem e isso só fez aumentar a crença no seu poder mágico. Com potentes alcaloides que em altas doses causam fortes dores, tonturas, alucinações, convulsões e morte a raiz da mandrágora era utilizada principalmente para propiciar alucinações. Quando empregada nos unguentos e estes espalhados nas mucosas nasais, vaginais e anais entravam rapidamente na corrente sanguínea produzindo muitas vezes efeitos letais. Atualmente os alcaloides produzidos pela mandrágora utilizados pela indústria farmacêutica na fabricação de anestésicosnestão sendo substituídos por alcaloides sintéticos, pois há ainda um comercio ilegal dessa planta e ainda hoje são atribuídas mortes à ela devido ao seu usonmágico. Como as dosagens mesmo pequenas podem ser fatais, pois muitas pessoas apresentam reações alérgicas, sua utilização vem sendo combatida. O meimendro (Hyoscyamus Níger) que atualmente é utilizado como medicamento homeopático e fitoterápico era um dos componentes do unguento das bruxas, para a elaboração de filtros amorosos e também era um potente veneno proporcionando alucinações e dores atrozes antes da morte. E, por último o cominho negro (Nigella sativa). Parte integrante do unguento era também muito utilizado para as poções amorosas e para os venenos (figura 2). Essa planta era muito utilizada como condimento e, assim como as sementes da papoula conferiam sabor especial aos pratos e são utilizados até hoje na culinária, mas combinados com outros alcaloides potencializavam seus efeitos devastadores. Essas quatro plantas eram utilizadas in natura, secas, reduzidas a pó, podia-se extrair a sua tintura deixando partes da planta (raízes, folhas, flores e frutos) mergulhados por um determinado tempo em vinho, e, depois administrava-se esse liquido que tanto podia curar como matar na comida, em outros filtros ou poções ou misturados em mais vinho em forma de chás, unguentos e beberagens. Todas essas formas de se administrar as plantas eram utilizadas na sua maioria por mulheres que detinham esses conhecimentos não por pertencerem a alguma espécie de seita ancestral que lhes conferiam poderes sobrenaturais, mas por esse saber estar intimamente ligado à rotina doméstica na qual estavam inseridas. Os afazeres culinários as obrigavam a conhecer quais as plantas deveriam ser empregadas para conservar os diferentes tipos de carnes, quais seriam as mais apropriadas para dar um gosto melhor à comida e quais eram as melhores para “limpar” o organismo de meses comendo apenas carnes salgadas e pães duros durante os pesados Invernos. A cozinha era um local de preparo de alimentos e, consequentemente era também o local onde se preparavam os remédios: uma sopa preparada com urtiga que colhida sem cuidado causava irritações graves na pele, alho-poró e cominho negro eram um remédio eficaz e revigorante para aqueles que sofreram ferimentos ou tiveram febres causadas pela infecção e algum ferimento. Alimento e remédio combinavam-se em um saber transmitido oralmente por mulheres no ambiente privado de suas cozinhas. Muitas vezes a esse tipo de alimento adicionava-se algumas gotas de tintura de beladona ou mesmo meimendro para que aliviasse as dores e ajudasse na cicatrização do ferimento impedindo que a infecção se alastrasse e conduzisse o ferido à morte. O conhecimento sobre o emprego dessas plantas mágicas tem uma base oral e ainda hoje no mundo todo é possível encontrar pessoas, na sua maioria mulheres que detém algum tipo de conhecimento sobre a utilização dessas e de muitas outras plantas. Hoje quando inicia-se um estudo mais profundo sobre a utilização dessas plantas mágicas, principalmente no que diz respeito à mandrágora, nos deparamos com inúmeros estudos sobre o seu uso mágico e das propriedades que essa plantas possui mas pouco são aqueles que advertem sobre a sua toxidade e os malefícios que podem causar à saúde. O comércio indevido e, mesmo as falsificações (há comerciantes que vendem raiz de gengibre delicadamente esculpida com a forma de um corpo humano como mandrágora!) favorecem as intoxicações, envenenamentos e a morte em nome de um saber mágico já totalmente modificado e deturpado.


Figura 3: Mandrágora, manuscrito Harley MS 1585, séc. XV; Figura 4: Mandrágora,manuscrito MS 18, f. 49v, 1400.

O conhecimento sobre botânica Antiga e Medieval é um campo de análise extremamente interessante e ainda pouco explorado principalmente no Brasil. Recentemente o estudo dessas plantas e seu uso para fins mágicos têm sido o objeto de estudos de químicos e bioquímicos que buscam nesse uso antigo e mágico dessas plantas possíveis soluções para males contemporâneos, pois o uso médico de muitos dos princípios ativos retirados da mandrágora, meimendro, belladona e cominho negro entre tantas outras, ainda são utilizados hoje com sucesso. O conhecimento do uso dessas plantas principalmente no que diz respeito ao seu uso mágico, foi representado de maneira singular em muitas iluminuras medievais e, o seu uso para os famosos voos pode ser observado nas pinturas na catedral de Schleswig-Holstein de onde podemos observar supostamente Frigg voando nua em ramos de meimendro e seu cabelo lembra a pétala das flores do cominho negro (c. 1200). Todas essas representações nos levam a refletir sobre a importância dessas plantas no cotidiano de populações inteiras que encontravam nas pétalas, folhas, raízes, pós, chás e tinturas o conforto para todos os seus males e temores: aliviam as dores do corpo e da alma, faziam nascer o amor e a paixão nos corações mais endurecidos, traziam a cura para muitos ferimentos graves e evitavam a gangrena, aliviam as dores de dar à luz, conduziam ao sabbath e, principalmente varriam do caminho com as piores dores todos aqueles que eram inconvenientes. O conhecimento mágico e terapêutico do uso dessas plantas mágicas que discorremos nestas linhas demonstra que durante a Idade Média o conhecimento botânico foi muito presente no cotidiano frequentando a cozinha e as hortas de camponeses bem como os jardins de mosteiros e palácios. A nós, resta-nos o deleite de observar as iluminuras, os vitrais e nos deliciar com as descrições dos devaneios amores que a essência dessas plantas oferecia.

Autora: Luciana de Campos (Doutoranda em Letras pela UFPB/integrante do NEVE)


Referências:

SALLMANN, Jean-Michel. As bruxas: noivas de satã. São Paulo: Objetiva, 2002.
GUAITA, Stanislas de. Mandrágora. O templo de Satã, vol. II. São Paulo: Editora Três, 1984, pp. 34-35.
LEVI, Eliphas. Dogma e ritual da Alta Magia. São Paulo: Pensamento, 1993.
MARTINEZ, Sabrina et al. Alucinógenos naturais: um voo da Europa Medieval
ao Brasil. Química Nova 32 (9), 2009, pp. 2501-2507.
ROBERTSON, David. Magical medicine in Viking Scandinavia. Medical History
20(3), 1976, pp. 317-322

sábado, 15 de julho de 2017

Bruxas modernas na rede virtual: a Internet como espaço de sociabilidade e disputas entre praticantes de wicca no Brasil

Queria compartilhar esse artigo com vocês do André Osório da Universidade Federal de Goiás Brasil postado na Revista de Ciêcias Sociais Sociedade e Cultura que tem como título “Bruxas modernas na rede virtual: a Internet como espaço de sociabilidade e disputas entre praticantes de wicca no Brasil”
 


Breve Resumo do Artigo:

Longe das acusações de malefício características da bruxaria tradicional, os grandes centros urbanos comportam hoje um grupo que se autodenomina como praticantes de bruxaria moderna, também conhecida como wicca. Por ser um grupo numericamente pequeno, a Internet tornou-se veículo fundamental de contato e troca de informações, possibilitando o surgimento de uma comunidade wiccana no país,cujasdisputasealteridade são construídas, também, no espaço virtual. 


ANDRÉA OSÓRIO, no seu artigo, apresenta como a Internet tornou-se um veículo fundamental para o grupo estudado. Religião minoritária no país, a wicca é apresentada por seus adeptos como uma forma de bruxaria moderna, no qual o malefício característico da bruxaria tradicional não está presente. Autodenominando-se bruxos, os praticantes encontram-se, muitas vezes, isolados, sem conhecimento de outros adeptos. Nesse sentido, segundo o autor, a Internet tornou-se o veículo preferencial para conhecer e entrar em contato com outras bruxas e bruxos no país. Espaço, portanto, de sociabilidade, que é levada da tela do computador ao mundo real por meio da promoção de reuniões, eventos e encontros, em âmbito regional ou nacional.
Espero que tenham gostado e boa leitura!

Bruxaria moderna wicca

Tentando um resgate da tradição mágica européia, a wicca reformula muito dessa tradição e abre-se à inclusão de elementos de qualquer origem espaço-temporal. Para seus seguidores, ela é uma religião pagã herdeira das tradições e crenças das comunidades européias anteriores ao cristianismo (Grimassi, 2000). Alguns wiccanos traçam uma linhagem que viria diretamente da Pré-história para os dias atuais, outros acreditam que a wicca foi formulada na Inglaterra na década de 1950. De qualquer forma, é possível perceber que a bruxaria wicca propõe-se a ser uma releitura de práticas pagãs européias anteriores ao cristianismo, especialmente aquelas de origem celta. Em sua cosmologia, a wicca professa a crença em um par divino, chamados a Deusa e o Deus. Encarnando princípios da natureza, esse par torna-se doador de vida. A Deusa é associada à terra, às águas e à lua. O Deus é associado ao sol, ao céu, aos animais e à vegetação. Eles representam princípios opostos, mas complementares. Ela teria dado origem a Ele e ambos teriam criado o universo e todas as coisas nele – ou seriam o próprio universo, a própria natureza. Sendo a primeira, Ela tem preeminência sobre o Deus, visto como seu filho e consorte, e essa preeminência reflete-se nas práticas da wicca. Por isto, nos rituais, o lugar de destaque e liderança deve ser, tradicionalmente, de uma mulher. Os wiccanos definem-se como bruxos, contudo, não há na wicca as acusações de malefício tão características da idéia de bruxaria (Evans-Pritchard, 1976; Maluf, 1993; Maggie, 1992). Este não é um traço apenas da wicca, mas de toda a Nova Era. Originada dentro de uma sociedade moderna e desencantada, a Nova Era mesclou crença na magia com crença na ciência e baniu o malefício. A crença mágica wiccana e new ager enfatiza muito mais o indivíduo do que a coletividade, que é a raiz da acusação de malefício. Critica a sociedade moderna, mas é fruto dela. Pretende, muitas vezes, o coletivismo, mas um coletivismo que se baseia no indivíduo. Nesse contexto, não há mais espaço para o malefício, embora a crença brasileira no mal e na bruxa como portadora do mal confronte os wiccanos com situações de hostilidade e preconceito mais ou menos abertas. A wicca chegou no Brasil em data imprecisa, através de literatura importada sobre o assunto. Aos poucos, essa literatura foi sendo traduzida para o português, e autores nativos surgiram como Márcia Frazão e Claudiney Prieto.1 Márcia Frazão foi a precursora de um mercado que em meados da década de 1990 parecia muito promissor, mas que nunca chegou a render best-sellers. Em meio aos anjos e magos que alcançavam os primeiros lugares no mercado literário da Nova Era, seguindo o rastro do fenômeno Paulo Coelho, Márcia Frazão começou a escrever em 1990 sobre a sua “condição de bruxa”. Em nove obras publicadas sobre bruxaria, de 1990 a 2005, ela faz extensas citações autobiográficas, sobretudo sobre sua família de bruxas, dá receitas de feitiços e rituais, ensina a ser bruxa. Apenas na segunda obra utiliza a palavra wicca, banida posteriormente de seu vocabulário por conta das disputas inerentes ao universo da própria wicca no país. Essas disputas giram em torno da dominação oficial de um campo religioso recém-estabelecido, onde lideranças com visões díspares do que sua religião deve ser e de como implementá-la travam batalhas verbais em um espaço até o momento novo: a Internet. Após Márcia Frazão, muitos outros autores brasileiros aventuraram-se a escrever sobre wicca, alguns com maior expressividade entre os wiccanos, outros desconhecidos. Prieto tornou-se um dos mais importantes, pois é também o presidente da única associação wiccana brasileira, conhecida como AbraWicca. O cargo lhe dá uma legitimidade que outros autores só conquistaram após anos freqüentando listas de discussão, uma ferramenta da Internet que é crucial para a wicca brasileira. Márcia Frazão e Claudiney Prieto são opositores ferrenhos um do outro. Suas visões do que a bruxaria moderna deve ser e de como mesclá-la à cultura brasileira são díspares. A discussão teológica, no entanto, não esconde a disputa pela liderança entre os wiccanos.





Do papael a tela


Há muito tempo tem-se feito uma distinção entre religiões que têm por base um livro sagrado e religiões que não têm. Embora a wicca não seja uma religião do livro, nesse sentido, pois não há uma fonte escrita ditada ou enviada pela própria divindade ou um de seus emissários, o seu aprendizado foi eminentemente efetuado pelos livros. Esta não é uma característica apenas da wicca. Criada – ou tornada pública, conforme a corrente de pensamento – na década de 1950, na Inglaterra, a bruxaria wicca seguiu o mesmo percurso de outros movimentos iniciados no exterior e que aportaram no Brasil por intermédio dos meios de comunicação. Dois exemplos podem ser citados: Maria Regina Costa (1993) descreve como o grupo “carecas do subúrbio” formou-se num misto entre o modelo skinhead inglês e a realidade brasileira específica dos “carecas”. Para ter acesso a esse modelo estrangeiro, a literatura sobre os skinheads era fundamental e constituía fonte ímpar para os “carecas”. Um grupo punk estudado por Janice Caiafa (1988) também recorria ao elemento impresso, na forma de revistas e fanzines, para tomar conhecimento do universo punk estrangeiro, além, é claro, da importância da música nesse grupo. Cartas faziam, naquela época sem Internet, a ligação entre brasileiros e estrangeiros A entrada da Internet no Brasil e sua progressiva popularização têm dado um novo fôlego àqueles que buscam informações nãopublicadas no país. É mais fácil buscar informações estrangeiras pela Internet do que uma literatura impressa. No caso wiccano, a informação disponibilizada na rede virtual é muito ampla e envolve todo o universo publicado sobre o assunto. Muitas vezes, fragmentos de uma obra são encontrados em homepages autorais sem a devida referência. Algumas das ferramentas mais utilizadas na Internet, além da manutenção de homepages, são o chat, espécie de conversação em tempo real, e a lista de discussão ou mailing list. Ambos são importantes no atual processo de disseminação da wicca no país. Como a wicca é uma religião minoritária, com poucos praticantes, sem templos e com uma única instituição em nível nacional – AbraWicca –, que, apesar de apresentar um franco crescimento, ainda não cobre toda a área do país, a possibilidade de encontro entre os membros é difícil. Para sanar esse problema, foram criados dois encontros anuais: um em São Paulo, o outro em Brasília. Nas capitais onde a Abra-Wicca está estabelecida, reuniões de membros são organizadas, embora não se possa afirmar com que freqüência. No caso do Rio de Janeiro, único que acompanhei de perto, a primeira coordenação indicada oficialmente não manteve a freqüência das reuniões, que foram tomadas pelos próprios membros em caráter extra-oficial, inclusive sem o pagamento das taxas de mensalidade previstas, mas com conhecimento da direção da entidade. As duas coordenações posteriores mantiveram reuniões freqüentes, a última recebendo mensalidades. Se as dificuldades de encontros reais em uma mesma cidade são grandes, a Internet provê os wiccanos com um espaço onde podem se “encontrar”, trocar informações e fazer amizades. Em dez entrevistas realizadas com diferentes bruxas e bruxos na área do Rio de Janeiro, percebi que a Internet havia tido uma importância crucial para quatro deles. Em todos esses casos, a Internet havia sido veículo para um primeiro contato com a bruxaria wicca ou com outras bruxas praticantes de wicca. Em função disto, até mesmo um coven (como é chamado o grupo de prática religiosa) foi formado com pessoas que se conheceram por meio da Internet. Diante desses fatos, é interessante formular um perfil do âmbito virtual da wicca no país. Ao ingressar nesse momento do estudo de campo,2 descobri que parte do que ocorre no meio da bruxaria wicca desenvolve-se pela Internet, e de lá propaga-se para o universo concreto. Pode-se subdividir a informação encontrada sobre wicca na Internet em dois grupos diferentes: aquela que é veiculada por homepages e aquela que é veiculada pelos chats e listas de discussão. No primeiro caso, há uma única pessoa ou grupo que assina a página, responsabilizando-se pelo seu conteúdo. No caso dos chats, ou salas de bate-papo, conversas paralelas são mantidas pelos presentes e cada um divulga a informação que lhe convém. O chat diferencia-se da lista de discussões pela fugacidade de sua existência. Ele é como uma conversação real. Os chats acessados pelas listas das quais participei eram o Wicca e o Bruxaria, encontrados em um grande portal e provedor. A lista de discussões funciona com procedimentos outros: um gerenciador de e-mails faz com que o assinante da lista receba todos os e-mails postados a ela. Durante a pesquisa, acompanhei três diferentes listas de discussão. Cada uma mantinha regras próprias de funcionamento e tinha diferentes moderadores. Tratá-las-ei como listas A, B e C, cada uma com duzentos a trezentos membros inscritos. As listas A e B, destinadas à discussão e à troca de informações sobre a wicca apenas, mantinham a peculiaridade de serem coordenadas por duas diferentes pessoas, de estreita amizade, que eram respectivamente o presidente e a diretora de assuntos jurídicos da Abra-Wicca. Funcionavam, desse modo, como listas irmãs ou correlatas. Era possível perceber como, freqüentemente, assuntos de uma lista passavam, por meio de membros comuns, para a outra. Participei dessas listas no período de fevereiro a setembro de 1999. Interessante notar que os membros de uma lista são, freqüentemente, membros de mais listas sobre o mesmo assunto. A lista C foi mantida por diferentes moderadores no período em que dela participei, de junho a dezembro de 1999. Diferentemente das outras duas listas, não mantinha nenhum tipo de vínculo com nenhuma instituição, nem se destinava exclusivamente a discussões sobre a bruxaria wicca. Era possível trocar informações acerca de qualquer assunto considerado mágico ou religioso nessa lista. Foi possível perceber que alguns de seus membros eram também membros das listas A e B. Não coletei dados de membros dessa lista, mas apenas acompanhei suas dinâmicas e discussões, visto que era freqüentada pela escritora Márcia Frazão. Ela tornou-se importante para compreender a disputa pela liderança no grupo wiccano no Brasil. Na medida em que Márcia Frazão e os diretores da Abra-Wicca passaram a exercer uma constante disputa por espaço como figuras mais importantes da bruxaria moderna no país, as listas viraram seu campo de batalha, pois eram onde se “encontravam” e debatiam suas opiniões. Nesse processo, Márcia Frazão deixou a lista A e apenas pude acompanhar seus movimento nessa disputa por suas mensagens na lista C. Uma vez membro dessas listas, pude perceber como o grupo da wicca no Brasil está em franca disputa por sua liderança. Nessa disputa, alinha-se a Abra-Wicca, de um lado, e Márcia Frazão, de outro. Como os coordenadores da Abra-Wicca moram em Brasília e São Paulo, enquanto Márcia Frazão reside em Nova Friburgo, interior do estado do Rio de Janeiro, a Internet transformou-se em veículochave para o domínio do grupo. Não só porque é na rede virtual que suas opiniões podem entrar em debate, mas também porque esse debate dá-se em público. A Internet tornou-se, desse modo, um elemento crucial nessa disputa, tanto mais quando observamos que é por meio dela que muitos têm o seu primeiro contato com a wicca. Eles chegam a esse contato, portanto, em um território sitiado e são instados desde o primeiro momento a tomarem um lado nessa disputa. Antes de prosseguir nessas questões, apresentarei o perfil dos membros das listas A e B. A lista C não apresentou oportunidades para que o perfil de seus membros fosse analisado Perfil das bruxas3 internautas. Para traçar o perfil das bruxas internautas fiz uso de mensagens postadas voluntariamente por elas às listas A e B. São informações veiculadas nas listas, não requisitadas por mim, que utilizei para esse estudo. Os números abaixo referem-se a um total de 77 indivíduos. Nem todos apresentam a mesma quantidade de informação. A primeira observação a ser feita é a maior presença de mulheres (55) do que de homens (22) no grupo estudado. As faixas etárias representadas demonstram que tanto a Internet quanto a bruxaria seduzem um público mais jovem: são 11 indivíduos entre 13 e 15 anos, 24 entre 16 e 20 anos, 28 entre 21 e 30 anos e 6 entre 31 e 41 anos. A maior parte dos membros das listas A e B está, portanto, na faixa dos 13 aos 30 anos. Quanto ao estado civil, com uma faixa tão jovem de população, é compreensível que o número de solteiros (35) supere o de casados (9) e separados (2). A grande parcela de jovens entre as bruxas internautas reflete-se na ocupação profissional. Os estudantes (25) são quase metade do universo de ocupados (53). Apenas quatro bruxas estudam e trabalham ao mesmo tempo. Entre aqueles que declararam a natureza de sua ocupação, pôde-se verificar a predominância de profissões de nível superior ou técnico. Os membros das listas estão concentrados na região Centro-Sul do país, com predominância clara de grandes metrópoles: 11 indivíduos residentes na cidade de São Paulo, 12 no Rio de Janeiro, 6 em Brasília, 6 em Belo Horizonte, 4 no interior de Minas Gerais, 5 em Curitiba e 8 no interior paulista. Outras regiões brasileiras apresentaram apenas um residente: Cuiabá, Goiânia, Recife, Belém, João Pessoa, Vitória, Santa Maria, Londrina e o estado do Maranhão. Esses números demonstram que os praticantes de bruxaria internautas são habitantes urbanos, especialmente do Sudeste, e pessoas com alto grau de formação escolar. É interessante observar que os estados de Minas Gerais, Paraná, Rio Grande do Sul e São Paulo são os únicos a apresentarem bruxas residentes fora de suas respectivas capitais. A busca de uma religião é, muitas vezes, apresentada nas listas como o motivo pelo qual a wicca foi descoberta. Ela é freqüentemente apontada como a religião escolhida após uma longa busca ou a religião adotada “desde sempre”, ou desde o nascimento. A busca é um conceito usado na narrativa dos participantes da Nova Era (Heelas, 1996) e denota a experiência com várias técnicas e filosofias desse movimento até o encontro com aquela considerada ideal. O encontro da bruxaria após uma busca traz a noção de que aquilo que era uma expressão religiosa interna do sujeito finalmente ganhou corpo doutrinário expresso numa religiosidade definida. A idéia de que se é bruxa “desde sempre” também está associada a essa noção de uma religiosidade interna, expressa agora por meio de um nome: bruxaria moderna ou wicca. A análise sobre o perfil religioso das bruxas internautas foi realizada em um universo de quinze respostas. Nestas, está sendo considerado tanto o perfil pessoal quanto o familiar, incluindo o cônjuge. Algumas bruxas responderam afirmativamente a mais de uma opção, apresentando, desse modo, uma mudança pessoal ou familiar. Contabilizaram-se 7 indivíduos que foram (ou famílias que são) espíritas, 6 católicos, 2 candomblecistas, 1 umbandista, 2 evangélicos, 2 budistas,1 judeu, 1 hare-krishna, 1 gnóstico, 1 teosofista e 1 participante da Ordem dos Cavaleiros do Templo. O espiritismo parece ser a religião que conta com mais ex-adeptos e familiares adeptos, o que se reflete no próprio discurso das bruxas de uma maneira muito própria. Temas como reencarnação, contato com espíritos, mediunidade e karma, tão presentes na doutrina espírita, são freqüentemente levantados nas listas, especialmente por aqueles que se apresentam como novatos na bruxaria. Para estes, o passado ligado ao espiritismo – ou presente, na forma dos familiares – torna-se uma espécie de parâmetro que influencia as opiniões pessoais e os questionamentos. Pontos como a aceitação do aborto e da homossexualidade na wicca A segunda religião mais influente entre os participantes de listas é o catolicismo. A quebra com os padrões doutrinários dessa religião apresenta-se como uma das maiores preocupações das bruxas internautas. No período em que participei dessas duas listas, não raro recebia mensagens nos quais ser cristã era uma acusação de ser “falsa bruxa”. O uso de símbolos cristãos e o recurso aos santos também foram objeto de discussões acerca da própria natureza de uma verdadeira bruxa. O candomblé aparece como uma religião pouco influente. Ataques ao candomblé, bem como ao espiritismo, nunca foram formulados enquanto permaneci nas listas A e B. Esses ataques são dirigidos apenas ao cristianismo, tanto aos católicos quanto aos evangélicos. Verificou-se a existência de dois ex-evangélicos entre os participantes das listas e dois exbudistas. As demais religiosidades apresentam apenas uma resposta. No caso do judaísmo, não fica claro se a bruxa era judia praticante antes de ingressar na wicca ou se esta era a religião de sua família ou cônjuge. O hare-krishna, a gnose, a teosofia e a Ordem dos Cavaleiros do Templo encontram-se ligados a uma religiosidade que pode ser definida como típica da Nova Era. Junto com o budismo, a religiosidade de Nova Era engloba seis participantes, o que a faz a terceira religiosidade mais influente entre as bruxas internautas. Havia, nessas listas, outros participantes de ordens esotéricas, algumas vezes a mais de uma, mas não deixaram claro quais eram. Desse modo, podemos concluir que as listas de discussão abrangem um público que vai além das bruxas wiccanas, mas que é composto também por integrantes da Nova Era. Estes, muitas vezes, acabam por abandonar suas opções anteriores e ingressam na bruxaria wicca. A disputa de liderança entre as bruxas brasileiras Durante a participação nas listas de discussão A, B e C, observei como um grupo nacional de wiccanos formava-se nesse espaço de sociabilidade. Nesse grupo, contudo, mantinha-se uma disputa por liderança. Nessa disputa, duas correntes antagônicas debatiam o que pensavam que a bruxaria moderna deveria ser no Brasil. De um lado, a escritora Márcia Frazão, pioneira nos livros sobre bruxaria moderna no país e, de outro, membros da direção da Abra-Wicca, a Associação Brasileira da Arte e Filosofia da Religião Wicca, única do gênero existente no país. Frazão é contra instituições ou associações de praticantes de bruxaria e contra os cursos que ensinam bruxaria. A Abra-Wicca promove tais cursos. Como a instituição cobra mensalidades e os cursos oferecidos envolvem pagamento para os não-sócios, Frazão observa nessa prática um comprometimento financeiro, o que não estaria de acordo com suas funções religiosas. As críticas de Frazão, contudo, deram vez à acusação de que buscava competir pela liderança do grupo. Acusações de “banalizar a bruxaria” ou “vulgarizar o paganismo” emergiram também de ambas as partes. Freqüentemente referemse às aparições midiáticas dos oponentes. Essas aparições levaram as duas correntes a discordar do uso que a imprensa faz do tema “bruxaria”. A imprensa é um elemento sempre presente no universo da bruxaria, tanto a escrita quanto a mídia televisiva. Cada programa levado ao ar, com a participação de uma das duas correntes, é ansiosamente aguardado e posteriormente comentado. Aparições de Frazão montada em uma vassoura ou programas que mostram bruxas ao lado do personagem Zé do Caixão, por exemplo, são malvistas, entendidas como um reforço no estigma ligado às bruxas. O ponto de discordância não é a aparição midiática em si, mas o teor e a motivação para tal, sempre vinculados à noção de que aquele que se expõe está em busca de fama, dinheiro e poder. Rituais à luz de tochas, bruxas usando mantos e capuzes, encontros público de bruxas são pontos que Frazão critica. Ela os vê como “banalização”. O maior ponto de discordância, contudo, reside em uma disputa teológica. Frazão critica o uso constante de tradições estrangeiras, chamando a atenção para o que chama de um estado de “colonização” cultural. Para Frazão, a bruxaria moderna (denominada wicca ou não), deveria estar ligada às tradições nativas. No caso brasileiro, estariam expressas na religiosidade afro-brasileira e nas rezadeiras e benzederias, vistas pela autora como bruxas, muito embora o folclore nacional as veja como opositoras das bruxas (Maluf, 1993). Os diretores da AbraWicca argumentam que a wicca é uma religião estrangeira, vinda da Inglaterra. Enxergam na autora um “nacionalismo exacerbado”, resquício do movimento da contracultura (uma vez que Frazão muitas vezes se apresenta em seus livros como remanescente do movimento hippie) e pensam que as rezadeiras são expressão de uma cultura cristã, não tendo nenhuma relação, portanto, com o universo de práticas pagãs da wicca. Como visto, as bruxas internautas mantêm uma constante preocupação em romper com todo legado cristão que possa vir a influenciá-las. Não se permitindo romper com esse legado, Frazão é vista como pessoa que se prende ao passado. Sua preocupação com o que chama de colonização cultural está na contramão da trajetória da maior parte das internautas, que, como visto, empreendem uma busca que perpassa várias formas de religiosidade típicas da Nova Era. Essa busca traduz-se em uma trajetória em que a bruxa se afasta da religião familiar, dirigindose a um universo de práticas importadas, sobretudo orientais. A disputa sobre o que a bruxaria moderna é ou deveria ser levou a Abra-Wicca, como saída para a crise, a indicar que, se Frazão é bruxa, não é wiccana. Essa estratégia não retira da autora seu status de conhecedora de procedimentos mágicos, mas a retira do grupo dos wiccanos, o qual a instituição pretende representar. O movimento é fazer com que Frazão não pertença mais ao grupo da wicca especificamente, mas ao grupo da bruxaria e da magia em geral. Desse modo, delimita-se o grupo e é apenas por meio da Abra-Wicca que se define o que pode ser considerado wicca ou não. A disputa pela liderança do grupo e as discussões teológicas entre os adversários fizeram entrar em movimento uma engrenagem que permite à instituição determinar o que é e o que não é wicca, pois Frazão jamais se apresenta como wiccana. As posições dos diretores da instituição tornam-se espécie de doutrina, que é propagada pela própria instituição, ganhando assim legitimidade. Como o que a wicca é ou deveria ser é uma polêmica que atinge todo o grupo, uma vez que define o pertencimento a ele (ser ou não wiccano depende do que se considera ou não ser bruxaria wicca), todos são instados a opinar e a cisão torna-se clara. A Abra-Wicca, divulgando na Internet o que pensa que a wicca deve ser no Brasil, ou seja, uma prática importada sem misturas com as religiões nativas e organizada nacionalmente em uma instituição, e por meio da disputa com Frazão, contribuiu para uma homogeneização do grupo, o que sem a rede virtual dificilmente ocorreria.

Algumas categorias de acusação 

Se as acusações entre as lideranças envolvem dinheiro, fama e poder, além de distintas visões do sagrado, as acusações observadas entre as próprias bruxas dizem sempre respeito à condição ou não de bruxa e indicam que essa condição pode ser posta em dúvida. Entre bruxas que foram entrevistadas na área do Rio de Janeiro e as internautas, observei muitas acusações quanto à conduta da bruxa, uma forma de desacreditar desafetos, indicando que não são praticantes respeitáveis da bruxaria moderna. Entre essas acusações, destacam-se: “busca pelo poder”, interesse econômico, “não ter comprometimento com a bruxaria”, ser cristão, não ser wiccano – todas encontradas também na disputa pela liderança –, determinados sensos estéticos (maquiagem exagerada, roupas exóticas), buscar a bruxaria para “estar na moda” ou ser de vanguarda, buscar a bruxaria para “afrontar a família”. O interesse econômico traduz-se no retorno financeiro que a atividade de bruxa traz. A bruxa que dá cursos de bruxaria é malvista entre as entrevistadas, mas não entre todas as internautas. Na Internet, a idéia de que a bruxaria pode ser aprendida em um curso pago, workshops ou outras atividades remuneradas é relativamente bem aceita, pois é prática corrente na Abra-Wicca. Mesmo assim, algumas bruxas ainda apresentam resistência a essas práticas. “Busca por poder” é uma categoria análoga à de interesse econômico, pois suscita a idéia de que a bruxa não exerce sua posição de pessoa religiosa, mas tenta tirar vantagens materiais ou status/prestígio do fato de ser bruxa. O ethos quebrado, em ambas as situações, é o da religião como espaço da caridade, da confiança, do amor ao próximo e do desinteresse. “Ser cristão” e “não ser wiccano” são ambas acusações que se inserem na noção de segmentação e exclusão. Uma bruxa “de verdade” rompe com os padrões do cristianismo. A grande maioria das bruxas estudadas provém de famílias cristãs. Há, dessa forma, uma ruptura simbólica com a família de sangue para um ingresso na família religiosa, composta pela comunidade das bruxas. Por outro lado, ser cristão é uma acusação que remete a determinadas qualidades atribuídas aos cristãos, negativas na maior parte das vezes. As acusações referentes à moda, ao senso estético ou à família tratam da falta de comprometimento da bruxa com o aspecto religioso da bruxaria, de sua necessidade de ser bruxa para os outros e não para si. Em todos esses casos, os praticantes expressam por meio das acusações situações em que a bruxa busca não a religião, mas uma identidade que serve para um grupo externo ao das bruxas. Os signos estéticos indicam, para quem não é bruxa, que quem os porta é. As idéias de afrontar a família ou estar na vanguarda igualmente remetem a ser bruxa para um grupo alheio e não por uma necessidade do Eu subjetivo. As acusações citadas são dirigidas de bruxas para bruxas. Há uma outra série de acusações que são dirigidas das bruxas para determinados grupos da sociedade, e da sociedade para elas, especialmente da própria família. Entre as acusações que as bruxas recebem de suas famílias, especificamente as bruxas entrevistadas, estão a de ser satanista, de “lidar com coisas pesadas”, de fazer “feitiçaria braba”, de ser louca. Nesse sentido, algumas queixam-se que as acusações podem vir a ser diretas, causando uma espécie de “segregação”. A bruxa, associada ao malefício, é vista como pessoa poluída, com quem não se deve manter contato. Ela passa a inspirar medo. Quando as acusações da família tomam o tom do deboche e da incredulidade, a categoria loucura entra em ação. Para a família, a bruxa é vista como louca ou como maléfica. No primeiro caso, ela é desacreditada; no segundo, ela é levada a sério, mas como um agente incômodo. Essas acusações reafirmam sua posição de desvio. Todavia, são vistas pelas bruxas como o retrato de uma espécie de preconceito, pois marcam a marginalidade de sua posição. Observe-se, aqui, que a atitude das bruxas é ambígua: ao mesmo tempo em que optam por uma religiosidade minoritária, relacionada na cultura nacional à prática do malefício, esperam que sua opção seja vista com “naturalidade”, como se não se tratasse de um caso desviante. Nos relatos colhidos, a hostilidade pode se evidenciar com algum grau de violência, especialmente no que se refere a estranhos. Uma das bruxas entrevistadas afirma que um desconhecido cuspiu-lhe, de dentro de um ônibus, chamando-a de “bruxa maldita”. Outra relata as ameaças que sofreu por telefone de sujeitos anônimos que afirmavam que ela não acreditava em Jesus Cristo e por isto “arderia no fogo do inferno”. Nesses dois casos, as bruxas em questão estavam mais expostas que as demais, pois assumiam publicamente sua religião, inclusive freqüentando programas de televisão no qual falavam sobre bruxaria. Entre as bruxas internautas, os evangélicos são vistos como os grandes vilões no que se refere ao preconceito contra as bruxas. Boatos sobre violência física de evangélicos contra bruxas circulam com alguma regularidade e as próprias bruxas afirmam que eles constituem um perigo real ao seu bem-estar físico. Há uma série de acusações elaboradas para os evangélicos, em especial, e para os cristãos, de um modo geral. Cristãos são vistos como machistas, “presos à razão” na forma da palavra escrita – enquanto as bruxas procuram formas de não razão, como a sensação e a emoção –, vivendo sob a idéia de temor a Deus e orientados apenas pelo divino, sem comprometimento com o indivíduo. Os evangélicos ainda são vistos como interessados em dinheiro – que, como indicado, é uma acusação que pesa entre as próprias bruxas –, proselitistas, manipuladores, arcaicos, chatos, preconceituosos e “incapazes de acessar o divino”. Formam-se, desse modo, categorias que atacam religiões que as bruxas vêem como oferecendo perigo à sua própria sobrevivência como indivíduos e como comunidade. Os atributos dos cristãos, sobretudo católicos e evangélicos, são aqueles rechaçados ao comportamento da bruxa e são inversos àqueles atributos definidos como específicos das bruxas wiccanas. O evangélico não é apenas um ator social a ser atacado, é um Outro. Essa categoria simboliza tudo o que uma bruxa não deve ser: ela não deve orientar suas práticas religiosas em função do ganho material, ela não deve ser proselitista, não deve ser machista e preconceituosa, não deve ser manipuladora, deve respeitar o livre-arbítrio e o indivíduo e deve dirigir-se ao divino não apenas pela mente, mas também pela emoção e pelas experiências sensoriais. Os católicos não sofrem tantas acusações quanto os evangélicos porque são sujeitos vistos como mais próximos ao paganismo. Seriam herdeiros da tradição pagã européia, superposta por uma roupagem religiosa cristã e pelo pensamento judaico-cristão. Dessa forma, datas e locais santos do catolicismo são freqüentemente associados a datas festivas e locais de culto pagãos. Há entre as bruxas pesquisadas um percurso religioso que freqüentemente começa no catolicismo ou no espiritismo. Há pouquíssimas bruxas provenientes do pentecostalismo. Assim, pode-se sugerir que os evangélicos tornaram-se sujeitos preferenciais das acusações das bruxas não apenas pelo seu comportamento em relação a elas – de acordo com o discurso das próprias bruxas –, mas também por não constituírem um núcleo religioso com o qual elas tenham mantido contato em algum momento de suas trajetórias religiosas pessoais. De qualquer forma, o rompimento com o cristianismo é um ponto sempre apresentado pelas bruxas internautas. Como pagãs, elas mantêm uma preocupação constante com o legado judaico-cristão e sua influência sobre as práticas da bruxaria. A forma encontrada para romper foi dupla: não apenas elas tornam-se pagãs, isto é, deixam de ser cristãs e abandonam as práticas cristãs, como aproximam o catolicismo do paganismo, como se a prévia experiência como católica não invalidasse a identidade de bruxa, pois o católico está mais próximo do paganismo do que o evangélico. Primeiro, é necessário esclarecer que o paganismo a que a grande maioria das bruxas se refere é sempre de origem européia, anterior à conversão cristã. Desse modo, o paganismo da Igreja Católica não se reporta a outras culturas. É possível ter acesso a essas outras culturas na prática da wicca. Isto depende apenas da bruxa, mas notase uma inclinação maior a mitologias, panteões e tradições européias do que africanas, asiáticas ou ameríndias, por exemplo. Em segundo lugar, devo dizer que o movimento duplo de ruptura comporta uma conversão e uma afirmação dessa conversão. Quando a bruxa declara que é pagã, ela não é mais cristã, e isto constitui uma conversão. Ela deve, portanto, romper com seus velhos hábitos, abandonando práticas cristãs. Por outro lado, a bruxa que abandona o catolicismo se converte a uma religiosidade que é vista como anterior àquela. Ela passa a ver no catolicismo práticas do paganismo. Assim, ela une novamente o que havia separado, preservando uma continuidade em seu percurso religioso. No caso das bruxas espíritas, o rompimento é ainda menos brusco. Muitas das concepções espíritas mantêm-se especialmente entre as bruxas internautas. A idéia de dom vinculada à de mediunidade (ser médium é um dom que identifica a bruxa), a noção de “pureza doutrinária” (não misturar concepções wiccanas com a religiosidade nativa, muito embora a noção de “pureza doutrinária” seja uma concepção nativa), a preocupação com a reencarnação e o karma são exemplos disto. É no conteúdo cristão que a bruxa espírita efetua o rompimento, não no conteúdo espírita. Quanto às demais categorias de acusação que as bruxas usam para aqueles que lhes atacam, estão: preconceituosa, ignorante, analfabeta, fanática, louca ou sem cultura. A bruxa que se sente acusada por uma pessoa que não é bruxa reage a essa acusação com uma contra-acusação. Nesse caso, ser preconceituoso, não ter cultura, ser analfabeto ou ignorante formam uma linha única de acusações que remetem à idéia de que aquele que acusa a bruxa – de malefício ou loucura – não sabe o que a bruxaria é na verdade. Falando sobre o que não conhece, ele comete erros. Por outro lado, fanático, “crente” e louco são acusações análogas. O crente é visto como um fanático, e o fanático é visto como louco, pessoa que não tem razão no que diz, que age sem conhecimento e que é
direcionado por uma pensamento único e obsessivo que não aceita nenhuma outra forma de expressão que não seja a própria. 


Comunidades virtuais 


O acesso à wicca no Brasil e a seus grupos de prática passa freqüentemente pela Internet. Como a liderança do grupo mais amplo pode ser disputada por meio da Internet? E por que essa disputa passa também por outros meios de comunicação? Se a identidade de bruxa não é uma que se defina pelos processos tecnológicos, é necessário verificar o porquê disto. Segundo Lévy (1999, p. 92), a Internet e o ciberespaço, definido por ele como o “espaço
aberto pela interconexão mundial dos computadores e das memórias dos computadores”, foram capazes de gerar comunidades virtuais.  Este é o conceito-chave para compreender como as bruxas disputam o domínio de seu grupo pela Internet. Com base na noção de que as listas de discussão formam comunidades, é possível perceber que as idéias veiculadas por meio delas têm um impacto real. As listas e as salas de bate-papo transformaram-se não apenas em instrumentos de disputa de um grupo, como parte da própria comunidade. A comunidade virtual, no caso das bruxas, é uma comunidade real, que promove encontros face a face e interações de diversos níveis. Ela é uma extensão do mundo concreto vivido por seus atores que, espalhados geograficamente por uma enorme extensão territorial, não seriam, de outro modo, capazes de manter contato. A questão territorial é importante no caso das bruxas: como analisado por meio dos questionários, mais da metade das bruxas reside na região Sudeste, espalhadas por seus quatro estados. Os principais núcleos de bruxaria no país (SP, RJ, MG, DF e PR) estão distantes para que se formasse uma comunidade regional. A Internet tornou-se o único instrumento capaz de aglomerar bruxas de todo o país em relacionamento e comunicação contínuos. As comunidades virtuais estão apoiadas no sistema de rede em que a Internet opera, bem como na noção de interconexão, que é a idéia de que qualquer possibilidade de comunicação é sempre preferível ao isolamento. Isto significa que as comunidades são formadas com a idéia de que a comunicação entre pessoas afins é preferível ao não-contato. Nesse sentido, Lévy (1999, p. 127) conceitua tais comunidades como “construídas sobre afinidades de interesses, de conhecimentos, sobre projetos mútuos, em um processo de cooperação ou de troca, tudo isso independente das proximidades geográficas e das filiações institucionais”. De fato, as listas servem para a troca contínua de informações e opiniões, independentemente das filiações, pois há alguns não-bruxos em listas sobre bruxaria. A afinidade de interesse pelo tema, a vontade de trocar conhecimento e de cooperar é o que faz com que as listas tomem a forma de comunidades virtuais. Como comunidades formadas em um meio de comunicação que funciona em termos de interação mediada pode vir a tornarse fundamental na disputa pela liderança e na sensação de pertencimento a um grupo? Ainda segundo Lévy (1999, p. 130), “uma comunidade virtual não é irreal, [...] trata-se simplesmente de um coletivo mais ou menos permanente que se organiza por meio do novo correio eletrônico mundial”. A Internet e as listas de discussão são meios de comunicação em que os sujeitos interagem de maneira mediada. Para Thompson (1998, p. 78), “as interações mediadas implicam o uso de um meio técnico (papel, fios elétricos, ondas eletromagnéticas etc.) que possibilita a transmissão de informação e conteúdo simbólico para indivíduos situados remotamente no espaço, no tempo ou em ambos”. Surge a idéia de que a Internet é um veículo de interação dos sujeitos. Essa interação não se limita ao ciberespaço. Para Lévy (1999, p. 128), “é raro que a comunicação por meio de redes de computadores substitua pura e simplesmente os encontros físicos. Na maior parte do tempo, é um complemento ou um adicional”. É possível compreender agora por que as listas de discussão freqüentemente engendram reuniões e encontros, nos quais seus membros vêm efetivamente a se conhecer. A Internet torna-se um instrumento de interação, mas não seu único palco. Ela funciona para aglomerar as bruxas e fazer com que conheçam outras como elas. É um espaço de sociabilidade que permite a formação de um grupo – uma comunidade – baseado em noções de pertencimento e alteridade. Isto está indicado nas acusações de não-pertencimento ao grupo anteriormente mencionadas. A Abra-Wicca vem, nesse sentido, servindo como um outro locus de sociabilidade baseada nessas mesmas noções, pois dela apenas fazem parte bruxas wiccanas. A idéia de disputa de liderança na Internet pode ficar mais explícita se compreendermos que as comunidades virtuais atuam, também, em uma base forte de moral social e freqüentemente apresentam um conjunto de leis não-escritas que regem suas relações (Lévy, 1999). Uma espécie de “etiqueta” é formulada, na qual a moral máxima é a da reciprocidade: o que é aprendido nas trocas e contatos no ciberespaço deve ser repassado. O que decorre desse procedimento é a construção de uma reputação de competência. A participação em uma lista de discussão pode ser importante para a construção de tal reputação entre as bruxas, especialmente quando sua comunidade se encontra mais no plano virtual do que face a face. Essa disputa está freqüentemente inserida em meios de comunicação que não se limitam à Internet, mas incluem também a televisão, o rádio, jornais, revistas e livros. Partindo da idéia de que “os meios de comunicação têm uma dimensão simbólica irredutível: eles se relacionam com a produção, o armazenamento e a circulação de materiais que são significativos para os indivíduos que os produzem e os recebem” (Thompson, 1998, p. 19), então eles tornam-se recursos que podem aumentar o poder de determinados indivíduos, uma vez acumulados. Isto quer dizer que o acesso e a freqüência desse acesso à imprensa de um modo geral é significativo de uma determinada posição no escopo de liderança no grupo da bruxaria moderna no Brasil. O maior ou menor acesso a grandes redes de televisão e a seus principais programas, bem como às principais revistas e jornais, é um recurso que a bruxa que disputa a liderança desse grupo tem em mãos para definir a sua posição. Quanto maior o acesso a esses recursos, maior o poder de competição. É por isto que muitas das acusações dizem respeito às aparições públicas e midiáticas. Elas são a medida dos recursos disponíveis para disputar a liderança de um grupo em expansão.


Entre o tradicional e o moderno

 Bruxa é uma categoria que remete a um sujeito tradicional, um operador de magia, sujeito místico – até mesmo religioso. Como esse sujeito tradicional vem aportar nas praias modernas dos computadores e formula, na Internet, uma comunidade de sujeitos iguais a ele? A bruxa de hoje é uma pessoa que está constituindo uma palavra, ganha novos seguidores. Como a liderança da wicca tem sido disputada no Brasil, a mídia tornou-se mais uma ferramenta. A bruxa que não é pública é uma bruxa que não existe. A Internet tornou-se outro veículo de disputa dessa liderança, quando se apresentou como um meio capaz de formar uma comunidade. Ela permite uma interação com uma resposta clara e um resultado que pode ser quantificado. Também apresenta-se como um meio contínuo de influência sobre o grupo, por parte das lideranças. Na Internet, as bruxas formaram uma comunidade e é só por meio dela que uma comunidade em termos nacionais pode ser pensada. Sem a Internet, as bruxas não estariam se conhecendo e trocando informações com a rapidez que isto ocorre, contribuindo para uma certa homogeneização das práticas e opiniões. A Internet deve ser vista como um espaço de desenvolvimento da wicca no país. Ela ajudou a formar uma comunidade que vai além do coven e que atinge todas as bruxas que queiram nela se inserir. Ajuda, dessa forma, a definir o próprio grupo. Não apenas a rede virtual, mas toda a gama de meios de comunicação é fundamental na manutenção e reprodução desse grupo no país. Isto leva a uma reflexão sobre o impacto das novas tecnologias na formação de novos grupos e na reprodução e manutenção destes, bem como de grupos já estabelecidos. Não seria inadequado sugerir que, sem esses meios, os wiccanos seriam um grupo ainda menor numericamente, pois muitos dos novos praticantes tomam conhecimento da wicca por meio da rede virtual. Para aqueles aos quais a literatura impressa foi fundamental, a rede virtual fornece um meio de sociabilidade com outros praticantes. De uma forma ou de outra, sem essa nova tecnologia o grupo nacional não existiria.

Considerações finais

Tentei demonstrar, no presente trabalho, como os meios de comunicação, sobretudo a rede virtual, podem ser utilizados por determinados grupos como uma ferramenta fundamental para sua manutenção e reprodução. Para um grupo como o pesquisado, numericamente pequeno e espalhado pelo país, a Internet é uma ferramenta valiosa, pois se tornou locus de sociabilidade e palco onde se desenrolam disputas por liderança e visões do que seja a bruxaria wicca, bem como por onde se propagam crenças e idéias do grupo. Mais do que um meio de comunicação, a Internet forma comunidades virtuais, que operam segundo uma etiqueta e buscam, no espaço virtual, o mesmo que buscam fora da rede. Sem a Internet, o grupo de wiccanos brasileiros dificilmente poderia ser compreendido como um grupo nacional, mas talvez apenas como grupos locais, em relativo isolamento. A construção de um espaço nacional permite a comunicação em uma língua franca e dinâmica,
que reproduz e constrói crenças e diretrizes, bem como se apropria do ethos virtual da troca de informações como um mecanismo para essa propagação de idéias. Se passar adiante pela rede (net) o que foi aprendido por intermédio dela faz parte da netiqueta, a própria rede tornase espaço privilegiado para grupos que não poderiam, de outra maneira, manter contatos freqüentes, de forma quase instantânea, como é o caso nos chats. A etiqueta da Internet funciona, assim, como um dos elementos que permite, ou legitima, que ela tenha se tornado espaço da construção e manutenção desse grupo e que seja utilizada como palco onde adversários entram em conflito por questões de liderança, sem esquecer que, por trás dessa liderança, existem concepções distintas do que a wicca é ou deveria ser no Brasil.
 

Referências

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