sábado, 15 de julho de 2017

Bruxas modernas na rede virtual: a Internet como espaço de sociabilidade e disputas entre praticantes de wicca no Brasil

Queria compartilhar esse artigo com vocês do André Osório da Universidade Federal de Goiás Brasil postado na Revista de Ciêcias Sociais Sociedade e Cultura que tem como título “Bruxas modernas na rede virtual: a Internet como espaço de sociabilidade e disputas entre praticantes de wicca no Brasil”
 


Breve Resumo do Artigo:

Longe das acusações de malefício características da bruxaria tradicional, os grandes centros urbanos comportam hoje um grupo que se autodenomina como praticantes de bruxaria moderna, também conhecida como wicca. Por ser um grupo numericamente pequeno, a Internet tornou-se veículo fundamental de contato e troca de informações, possibilitando o surgimento de uma comunidade wiccana no país,cujasdisputasealteridade são construídas, também, no espaço virtual. 


ANDRÉA OSÓRIO, no seu artigo, apresenta como a Internet tornou-se um veículo fundamental para o grupo estudado. Religião minoritária no país, a wicca é apresentada por seus adeptos como uma forma de bruxaria moderna, no qual o malefício característico da bruxaria tradicional não está presente. Autodenominando-se bruxos, os praticantes encontram-se, muitas vezes, isolados, sem conhecimento de outros adeptos. Nesse sentido, segundo o autor, a Internet tornou-se o veículo preferencial para conhecer e entrar em contato com outras bruxas e bruxos no país. Espaço, portanto, de sociabilidade, que é levada da tela do computador ao mundo real por meio da promoção de reuniões, eventos e encontros, em âmbito regional ou nacional.
Espero que tenham gostado e boa leitura!

Bruxaria moderna wicca

Tentando um resgate da tradição mágica européia, a wicca reformula muito dessa tradição e abre-se à inclusão de elementos de qualquer origem espaço-temporal. Para seus seguidores, ela é uma religião pagã herdeira das tradições e crenças das comunidades européias anteriores ao cristianismo (Grimassi, 2000). Alguns wiccanos traçam uma linhagem que viria diretamente da Pré-história para os dias atuais, outros acreditam que a wicca foi formulada na Inglaterra na década de 1950. De qualquer forma, é possível perceber que a bruxaria wicca propõe-se a ser uma releitura de práticas pagãs européias anteriores ao cristianismo, especialmente aquelas de origem celta. Em sua cosmologia, a wicca professa a crença em um par divino, chamados a Deusa e o Deus. Encarnando princípios da natureza, esse par torna-se doador de vida. A Deusa é associada à terra, às águas e à lua. O Deus é associado ao sol, ao céu, aos animais e à vegetação. Eles representam princípios opostos, mas complementares. Ela teria dado origem a Ele e ambos teriam criado o universo e todas as coisas nele – ou seriam o próprio universo, a própria natureza. Sendo a primeira, Ela tem preeminência sobre o Deus, visto como seu filho e consorte, e essa preeminência reflete-se nas práticas da wicca. Por isto, nos rituais, o lugar de destaque e liderança deve ser, tradicionalmente, de uma mulher. Os wiccanos definem-se como bruxos, contudo, não há na wicca as acusações de malefício tão características da idéia de bruxaria (Evans-Pritchard, 1976; Maluf, 1993; Maggie, 1992). Este não é um traço apenas da wicca, mas de toda a Nova Era. Originada dentro de uma sociedade moderna e desencantada, a Nova Era mesclou crença na magia com crença na ciência e baniu o malefício. A crença mágica wiccana e new ager enfatiza muito mais o indivíduo do que a coletividade, que é a raiz da acusação de malefício. Critica a sociedade moderna, mas é fruto dela. Pretende, muitas vezes, o coletivismo, mas um coletivismo que se baseia no indivíduo. Nesse contexto, não há mais espaço para o malefício, embora a crença brasileira no mal e na bruxa como portadora do mal confronte os wiccanos com situações de hostilidade e preconceito mais ou menos abertas. A wicca chegou no Brasil em data imprecisa, através de literatura importada sobre o assunto. Aos poucos, essa literatura foi sendo traduzida para o português, e autores nativos surgiram como Márcia Frazão e Claudiney Prieto.1 Márcia Frazão foi a precursora de um mercado que em meados da década de 1990 parecia muito promissor, mas que nunca chegou a render best-sellers. Em meio aos anjos e magos que alcançavam os primeiros lugares no mercado literário da Nova Era, seguindo o rastro do fenômeno Paulo Coelho, Márcia Frazão começou a escrever em 1990 sobre a sua “condição de bruxa”. Em nove obras publicadas sobre bruxaria, de 1990 a 2005, ela faz extensas citações autobiográficas, sobretudo sobre sua família de bruxas, dá receitas de feitiços e rituais, ensina a ser bruxa. Apenas na segunda obra utiliza a palavra wicca, banida posteriormente de seu vocabulário por conta das disputas inerentes ao universo da própria wicca no país. Essas disputas giram em torno da dominação oficial de um campo religioso recém-estabelecido, onde lideranças com visões díspares do que sua religião deve ser e de como implementá-la travam batalhas verbais em um espaço até o momento novo: a Internet. Após Márcia Frazão, muitos outros autores brasileiros aventuraram-se a escrever sobre wicca, alguns com maior expressividade entre os wiccanos, outros desconhecidos. Prieto tornou-se um dos mais importantes, pois é também o presidente da única associação wiccana brasileira, conhecida como AbraWicca. O cargo lhe dá uma legitimidade que outros autores só conquistaram após anos freqüentando listas de discussão, uma ferramenta da Internet que é crucial para a wicca brasileira. Márcia Frazão e Claudiney Prieto são opositores ferrenhos um do outro. Suas visões do que a bruxaria moderna deve ser e de como mesclá-la à cultura brasileira são díspares. A discussão teológica, no entanto, não esconde a disputa pela liderança entre os wiccanos.





Do papael a tela


Há muito tempo tem-se feito uma distinção entre religiões que têm por base um livro sagrado e religiões que não têm. Embora a wicca não seja uma religião do livro, nesse sentido, pois não há uma fonte escrita ditada ou enviada pela própria divindade ou um de seus emissários, o seu aprendizado foi eminentemente efetuado pelos livros. Esta não é uma característica apenas da wicca. Criada – ou tornada pública, conforme a corrente de pensamento – na década de 1950, na Inglaterra, a bruxaria wicca seguiu o mesmo percurso de outros movimentos iniciados no exterior e que aportaram no Brasil por intermédio dos meios de comunicação. Dois exemplos podem ser citados: Maria Regina Costa (1993) descreve como o grupo “carecas do subúrbio” formou-se num misto entre o modelo skinhead inglês e a realidade brasileira específica dos “carecas”. Para ter acesso a esse modelo estrangeiro, a literatura sobre os skinheads era fundamental e constituía fonte ímpar para os “carecas”. Um grupo punk estudado por Janice Caiafa (1988) também recorria ao elemento impresso, na forma de revistas e fanzines, para tomar conhecimento do universo punk estrangeiro, além, é claro, da importância da música nesse grupo. Cartas faziam, naquela época sem Internet, a ligação entre brasileiros e estrangeiros A entrada da Internet no Brasil e sua progressiva popularização têm dado um novo fôlego àqueles que buscam informações nãopublicadas no país. É mais fácil buscar informações estrangeiras pela Internet do que uma literatura impressa. No caso wiccano, a informação disponibilizada na rede virtual é muito ampla e envolve todo o universo publicado sobre o assunto. Muitas vezes, fragmentos de uma obra são encontrados em homepages autorais sem a devida referência. Algumas das ferramentas mais utilizadas na Internet, além da manutenção de homepages, são o chat, espécie de conversação em tempo real, e a lista de discussão ou mailing list. Ambos são importantes no atual processo de disseminação da wicca no país. Como a wicca é uma religião minoritária, com poucos praticantes, sem templos e com uma única instituição em nível nacional – AbraWicca –, que, apesar de apresentar um franco crescimento, ainda não cobre toda a área do país, a possibilidade de encontro entre os membros é difícil. Para sanar esse problema, foram criados dois encontros anuais: um em São Paulo, o outro em Brasília. Nas capitais onde a Abra-Wicca está estabelecida, reuniões de membros são organizadas, embora não se possa afirmar com que freqüência. No caso do Rio de Janeiro, único que acompanhei de perto, a primeira coordenação indicada oficialmente não manteve a freqüência das reuniões, que foram tomadas pelos próprios membros em caráter extra-oficial, inclusive sem o pagamento das taxas de mensalidade previstas, mas com conhecimento da direção da entidade. As duas coordenações posteriores mantiveram reuniões freqüentes, a última recebendo mensalidades. Se as dificuldades de encontros reais em uma mesma cidade são grandes, a Internet provê os wiccanos com um espaço onde podem se “encontrar”, trocar informações e fazer amizades. Em dez entrevistas realizadas com diferentes bruxas e bruxos na área do Rio de Janeiro, percebi que a Internet havia tido uma importância crucial para quatro deles. Em todos esses casos, a Internet havia sido veículo para um primeiro contato com a bruxaria wicca ou com outras bruxas praticantes de wicca. Em função disto, até mesmo um coven (como é chamado o grupo de prática religiosa) foi formado com pessoas que se conheceram por meio da Internet. Diante desses fatos, é interessante formular um perfil do âmbito virtual da wicca no país. Ao ingressar nesse momento do estudo de campo,2 descobri que parte do que ocorre no meio da bruxaria wicca desenvolve-se pela Internet, e de lá propaga-se para o universo concreto. Pode-se subdividir a informação encontrada sobre wicca na Internet em dois grupos diferentes: aquela que é veiculada por homepages e aquela que é veiculada pelos chats e listas de discussão. No primeiro caso, há uma única pessoa ou grupo que assina a página, responsabilizando-se pelo seu conteúdo. No caso dos chats, ou salas de bate-papo, conversas paralelas são mantidas pelos presentes e cada um divulga a informação que lhe convém. O chat diferencia-se da lista de discussões pela fugacidade de sua existência. Ele é como uma conversação real. Os chats acessados pelas listas das quais participei eram o Wicca e o Bruxaria, encontrados em um grande portal e provedor. A lista de discussões funciona com procedimentos outros: um gerenciador de e-mails faz com que o assinante da lista receba todos os e-mails postados a ela. Durante a pesquisa, acompanhei três diferentes listas de discussão. Cada uma mantinha regras próprias de funcionamento e tinha diferentes moderadores. Tratá-las-ei como listas A, B e C, cada uma com duzentos a trezentos membros inscritos. As listas A e B, destinadas à discussão e à troca de informações sobre a wicca apenas, mantinham a peculiaridade de serem coordenadas por duas diferentes pessoas, de estreita amizade, que eram respectivamente o presidente e a diretora de assuntos jurídicos da Abra-Wicca. Funcionavam, desse modo, como listas irmãs ou correlatas. Era possível perceber como, freqüentemente, assuntos de uma lista passavam, por meio de membros comuns, para a outra. Participei dessas listas no período de fevereiro a setembro de 1999. Interessante notar que os membros de uma lista são, freqüentemente, membros de mais listas sobre o mesmo assunto. A lista C foi mantida por diferentes moderadores no período em que dela participei, de junho a dezembro de 1999. Diferentemente das outras duas listas, não mantinha nenhum tipo de vínculo com nenhuma instituição, nem se destinava exclusivamente a discussões sobre a bruxaria wicca. Era possível trocar informações acerca de qualquer assunto considerado mágico ou religioso nessa lista. Foi possível perceber que alguns de seus membros eram também membros das listas A e B. Não coletei dados de membros dessa lista, mas apenas acompanhei suas dinâmicas e discussões, visto que era freqüentada pela escritora Márcia Frazão. Ela tornou-se importante para compreender a disputa pela liderança no grupo wiccano no Brasil. Na medida em que Márcia Frazão e os diretores da Abra-Wicca passaram a exercer uma constante disputa por espaço como figuras mais importantes da bruxaria moderna no país, as listas viraram seu campo de batalha, pois eram onde se “encontravam” e debatiam suas opiniões. Nesse processo, Márcia Frazão deixou a lista A e apenas pude acompanhar seus movimento nessa disputa por suas mensagens na lista C. Uma vez membro dessas listas, pude perceber como o grupo da wicca no Brasil está em franca disputa por sua liderança. Nessa disputa, alinha-se a Abra-Wicca, de um lado, e Márcia Frazão, de outro. Como os coordenadores da Abra-Wicca moram em Brasília e São Paulo, enquanto Márcia Frazão reside em Nova Friburgo, interior do estado do Rio de Janeiro, a Internet transformou-se em veículochave para o domínio do grupo. Não só porque é na rede virtual que suas opiniões podem entrar em debate, mas também porque esse debate dá-se em público. A Internet tornou-se, desse modo, um elemento crucial nessa disputa, tanto mais quando observamos que é por meio dela que muitos têm o seu primeiro contato com a wicca. Eles chegam a esse contato, portanto, em um território sitiado e são instados desde o primeiro momento a tomarem um lado nessa disputa. Antes de prosseguir nessas questões, apresentarei o perfil dos membros das listas A e B. A lista C não apresentou oportunidades para que o perfil de seus membros fosse analisado Perfil das bruxas3 internautas. Para traçar o perfil das bruxas internautas fiz uso de mensagens postadas voluntariamente por elas às listas A e B. São informações veiculadas nas listas, não requisitadas por mim, que utilizei para esse estudo. Os números abaixo referem-se a um total de 77 indivíduos. Nem todos apresentam a mesma quantidade de informação. A primeira observação a ser feita é a maior presença de mulheres (55) do que de homens (22) no grupo estudado. As faixas etárias representadas demonstram que tanto a Internet quanto a bruxaria seduzem um público mais jovem: são 11 indivíduos entre 13 e 15 anos, 24 entre 16 e 20 anos, 28 entre 21 e 30 anos e 6 entre 31 e 41 anos. A maior parte dos membros das listas A e B está, portanto, na faixa dos 13 aos 30 anos. Quanto ao estado civil, com uma faixa tão jovem de população, é compreensível que o número de solteiros (35) supere o de casados (9) e separados (2). A grande parcela de jovens entre as bruxas internautas reflete-se na ocupação profissional. Os estudantes (25) são quase metade do universo de ocupados (53). Apenas quatro bruxas estudam e trabalham ao mesmo tempo. Entre aqueles que declararam a natureza de sua ocupação, pôde-se verificar a predominância de profissões de nível superior ou técnico. Os membros das listas estão concentrados na região Centro-Sul do país, com predominância clara de grandes metrópoles: 11 indivíduos residentes na cidade de São Paulo, 12 no Rio de Janeiro, 6 em Brasília, 6 em Belo Horizonte, 4 no interior de Minas Gerais, 5 em Curitiba e 8 no interior paulista. Outras regiões brasileiras apresentaram apenas um residente: Cuiabá, Goiânia, Recife, Belém, João Pessoa, Vitória, Santa Maria, Londrina e o estado do Maranhão. Esses números demonstram que os praticantes de bruxaria internautas são habitantes urbanos, especialmente do Sudeste, e pessoas com alto grau de formação escolar. É interessante observar que os estados de Minas Gerais, Paraná, Rio Grande do Sul e São Paulo são os únicos a apresentarem bruxas residentes fora de suas respectivas capitais. A busca de uma religião é, muitas vezes, apresentada nas listas como o motivo pelo qual a wicca foi descoberta. Ela é freqüentemente apontada como a religião escolhida após uma longa busca ou a religião adotada “desde sempre”, ou desde o nascimento. A busca é um conceito usado na narrativa dos participantes da Nova Era (Heelas, 1996) e denota a experiência com várias técnicas e filosofias desse movimento até o encontro com aquela considerada ideal. O encontro da bruxaria após uma busca traz a noção de que aquilo que era uma expressão religiosa interna do sujeito finalmente ganhou corpo doutrinário expresso numa religiosidade definida. A idéia de que se é bruxa “desde sempre” também está associada a essa noção de uma religiosidade interna, expressa agora por meio de um nome: bruxaria moderna ou wicca. A análise sobre o perfil religioso das bruxas internautas foi realizada em um universo de quinze respostas. Nestas, está sendo considerado tanto o perfil pessoal quanto o familiar, incluindo o cônjuge. Algumas bruxas responderam afirmativamente a mais de uma opção, apresentando, desse modo, uma mudança pessoal ou familiar. Contabilizaram-se 7 indivíduos que foram (ou famílias que são) espíritas, 6 católicos, 2 candomblecistas, 1 umbandista, 2 evangélicos, 2 budistas,1 judeu, 1 hare-krishna, 1 gnóstico, 1 teosofista e 1 participante da Ordem dos Cavaleiros do Templo. O espiritismo parece ser a religião que conta com mais ex-adeptos e familiares adeptos, o que se reflete no próprio discurso das bruxas de uma maneira muito própria. Temas como reencarnação, contato com espíritos, mediunidade e karma, tão presentes na doutrina espírita, são freqüentemente levantados nas listas, especialmente por aqueles que se apresentam como novatos na bruxaria. Para estes, o passado ligado ao espiritismo – ou presente, na forma dos familiares – torna-se uma espécie de parâmetro que influencia as opiniões pessoais e os questionamentos. Pontos como a aceitação do aborto e da homossexualidade na wicca A segunda religião mais influente entre os participantes de listas é o catolicismo. A quebra com os padrões doutrinários dessa religião apresenta-se como uma das maiores preocupações das bruxas internautas. No período em que participei dessas duas listas, não raro recebia mensagens nos quais ser cristã era uma acusação de ser “falsa bruxa”. O uso de símbolos cristãos e o recurso aos santos também foram objeto de discussões acerca da própria natureza de uma verdadeira bruxa. O candomblé aparece como uma religião pouco influente. Ataques ao candomblé, bem como ao espiritismo, nunca foram formulados enquanto permaneci nas listas A e B. Esses ataques são dirigidos apenas ao cristianismo, tanto aos católicos quanto aos evangélicos. Verificou-se a existência de dois ex-evangélicos entre os participantes das listas e dois exbudistas. As demais religiosidades apresentam apenas uma resposta. No caso do judaísmo, não fica claro se a bruxa era judia praticante antes de ingressar na wicca ou se esta era a religião de sua família ou cônjuge. O hare-krishna, a gnose, a teosofia e a Ordem dos Cavaleiros do Templo encontram-se ligados a uma religiosidade que pode ser definida como típica da Nova Era. Junto com o budismo, a religiosidade de Nova Era engloba seis participantes, o que a faz a terceira religiosidade mais influente entre as bruxas internautas. Havia, nessas listas, outros participantes de ordens esotéricas, algumas vezes a mais de uma, mas não deixaram claro quais eram. Desse modo, podemos concluir que as listas de discussão abrangem um público que vai além das bruxas wiccanas, mas que é composto também por integrantes da Nova Era. Estes, muitas vezes, acabam por abandonar suas opções anteriores e ingressam na bruxaria wicca. A disputa de liderança entre as bruxas brasileiras Durante a participação nas listas de discussão A, B e C, observei como um grupo nacional de wiccanos formava-se nesse espaço de sociabilidade. Nesse grupo, contudo, mantinha-se uma disputa por liderança. Nessa disputa, duas correntes antagônicas debatiam o que pensavam que a bruxaria moderna deveria ser no Brasil. De um lado, a escritora Márcia Frazão, pioneira nos livros sobre bruxaria moderna no país e, de outro, membros da direção da Abra-Wicca, a Associação Brasileira da Arte e Filosofia da Religião Wicca, única do gênero existente no país. Frazão é contra instituições ou associações de praticantes de bruxaria e contra os cursos que ensinam bruxaria. A Abra-Wicca promove tais cursos. Como a instituição cobra mensalidades e os cursos oferecidos envolvem pagamento para os não-sócios, Frazão observa nessa prática um comprometimento financeiro, o que não estaria de acordo com suas funções religiosas. As críticas de Frazão, contudo, deram vez à acusação de que buscava competir pela liderança do grupo. Acusações de “banalizar a bruxaria” ou “vulgarizar o paganismo” emergiram também de ambas as partes. Freqüentemente referemse às aparições midiáticas dos oponentes. Essas aparições levaram as duas correntes a discordar do uso que a imprensa faz do tema “bruxaria”. A imprensa é um elemento sempre presente no universo da bruxaria, tanto a escrita quanto a mídia televisiva. Cada programa levado ao ar, com a participação de uma das duas correntes, é ansiosamente aguardado e posteriormente comentado. Aparições de Frazão montada em uma vassoura ou programas que mostram bruxas ao lado do personagem Zé do Caixão, por exemplo, são malvistas, entendidas como um reforço no estigma ligado às bruxas. O ponto de discordância não é a aparição midiática em si, mas o teor e a motivação para tal, sempre vinculados à noção de que aquele que se expõe está em busca de fama, dinheiro e poder. Rituais à luz de tochas, bruxas usando mantos e capuzes, encontros público de bruxas são pontos que Frazão critica. Ela os vê como “banalização”. O maior ponto de discordância, contudo, reside em uma disputa teológica. Frazão critica o uso constante de tradições estrangeiras, chamando a atenção para o que chama de um estado de “colonização” cultural. Para Frazão, a bruxaria moderna (denominada wicca ou não), deveria estar ligada às tradições nativas. No caso brasileiro, estariam expressas na religiosidade afro-brasileira e nas rezadeiras e benzederias, vistas pela autora como bruxas, muito embora o folclore nacional as veja como opositoras das bruxas (Maluf, 1993). Os diretores da AbraWicca argumentam que a wicca é uma religião estrangeira, vinda da Inglaterra. Enxergam na autora um “nacionalismo exacerbado”, resquício do movimento da contracultura (uma vez que Frazão muitas vezes se apresenta em seus livros como remanescente do movimento hippie) e pensam que as rezadeiras são expressão de uma cultura cristã, não tendo nenhuma relação, portanto, com o universo de práticas pagãs da wicca. Como visto, as bruxas internautas mantêm uma constante preocupação em romper com todo legado cristão que possa vir a influenciá-las. Não se permitindo romper com esse legado, Frazão é vista como pessoa que se prende ao passado. Sua preocupação com o que chama de colonização cultural está na contramão da trajetória da maior parte das internautas, que, como visto, empreendem uma busca que perpassa várias formas de religiosidade típicas da Nova Era. Essa busca traduz-se em uma trajetória em que a bruxa se afasta da religião familiar, dirigindose a um universo de práticas importadas, sobretudo orientais. A disputa sobre o que a bruxaria moderna é ou deveria ser levou a Abra-Wicca, como saída para a crise, a indicar que, se Frazão é bruxa, não é wiccana. Essa estratégia não retira da autora seu status de conhecedora de procedimentos mágicos, mas a retira do grupo dos wiccanos, o qual a instituição pretende representar. O movimento é fazer com que Frazão não pertença mais ao grupo da wicca especificamente, mas ao grupo da bruxaria e da magia em geral. Desse modo, delimita-se o grupo e é apenas por meio da Abra-Wicca que se define o que pode ser considerado wicca ou não. A disputa pela liderança do grupo e as discussões teológicas entre os adversários fizeram entrar em movimento uma engrenagem que permite à instituição determinar o que é e o que não é wicca, pois Frazão jamais se apresenta como wiccana. As posições dos diretores da instituição tornam-se espécie de doutrina, que é propagada pela própria instituição, ganhando assim legitimidade. Como o que a wicca é ou deveria ser é uma polêmica que atinge todo o grupo, uma vez que define o pertencimento a ele (ser ou não wiccano depende do que se considera ou não ser bruxaria wicca), todos são instados a opinar e a cisão torna-se clara. A Abra-Wicca, divulgando na Internet o que pensa que a wicca deve ser no Brasil, ou seja, uma prática importada sem misturas com as religiões nativas e organizada nacionalmente em uma instituição, e por meio da disputa com Frazão, contribuiu para uma homogeneização do grupo, o que sem a rede virtual dificilmente ocorreria.

Algumas categorias de acusação 

Se as acusações entre as lideranças envolvem dinheiro, fama e poder, além de distintas visões do sagrado, as acusações observadas entre as próprias bruxas dizem sempre respeito à condição ou não de bruxa e indicam que essa condição pode ser posta em dúvida. Entre bruxas que foram entrevistadas na área do Rio de Janeiro e as internautas, observei muitas acusações quanto à conduta da bruxa, uma forma de desacreditar desafetos, indicando que não são praticantes respeitáveis da bruxaria moderna. Entre essas acusações, destacam-se: “busca pelo poder”, interesse econômico, “não ter comprometimento com a bruxaria”, ser cristão, não ser wiccano – todas encontradas também na disputa pela liderança –, determinados sensos estéticos (maquiagem exagerada, roupas exóticas), buscar a bruxaria para “estar na moda” ou ser de vanguarda, buscar a bruxaria para “afrontar a família”. O interesse econômico traduz-se no retorno financeiro que a atividade de bruxa traz. A bruxa que dá cursos de bruxaria é malvista entre as entrevistadas, mas não entre todas as internautas. Na Internet, a idéia de que a bruxaria pode ser aprendida em um curso pago, workshops ou outras atividades remuneradas é relativamente bem aceita, pois é prática corrente na Abra-Wicca. Mesmo assim, algumas bruxas ainda apresentam resistência a essas práticas. “Busca por poder” é uma categoria análoga à de interesse econômico, pois suscita a idéia de que a bruxa não exerce sua posição de pessoa religiosa, mas tenta tirar vantagens materiais ou status/prestígio do fato de ser bruxa. O ethos quebrado, em ambas as situações, é o da religião como espaço da caridade, da confiança, do amor ao próximo e do desinteresse. “Ser cristão” e “não ser wiccano” são ambas acusações que se inserem na noção de segmentação e exclusão. Uma bruxa “de verdade” rompe com os padrões do cristianismo. A grande maioria das bruxas estudadas provém de famílias cristãs. Há, dessa forma, uma ruptura simbólica com a família de sangue para um ingresso na família religiosa, composta pela comunidade das bruxas. Por outro lado, ser cristão é uma acusação que remete a determinadas qualidades atribuídas aos cristãos, negativas na maior parte das vezes. As acusações referentes à moda, ao senso estético ou à família tratam da falta de comprometimento da bruxa com o aspecto religioso da bruxaria, de sua necessidade de ser bruxa para os outros e não para si. Em todos esses casos, os praticantes expressam por meio das acusações situações em que a bruxa busca não a religião, mas uma identidade que serve para um grupo externo ao das bruxas. Os signos estéticos indicam, para quem não é bruxa, que quem os porta é. As idéias de afrontar a família ou estar na vanguarda igualmente remetem a ser bruxa para um grupo alheio e não por uma necessidade do Eu subjetivo. As acusações citadas são dirigidas de bruxas para bruxas. Há uma outra série de acusações que são dirigidas das bruxas para determinados grupos da sociedade, e da sociedade para elas, especialmente da própria família. Entre as acusações que as bruxas recebem de suas famílias, especificamente as bruxas entrevistadas, estão a de ser satanista, de “lidar com coisas pesadas”, de fazer “feitiçaria braba”, de ser louca. Nesse sentido, algumas queixam-se que as acusações podem vir a ser diretas, causando uma espécie de “segregação”. A bruxa, associada ao malefício, é vista como pessoa poluída, com quem não se deve manter contato. Ela passa a inspirar medo. Quando as acusações da família tomam o tom do deboche e da incredulidade, a categoria loucura entra em ação. Para a família, a bruxa é vista como louca ou como maléfica. No primeiro caso, ela é desacreditada; no segundo, ela é levada a sério, mas como um agente incômodo. Essas acusações reafirmam sua posição de desvio. Todavia, são vistas pelas bruxas como o retrato de uma espécie de preconceito, pois marcam a marginalidade de sua posição. Observe-se, aqui, que a atitude das bruxas é ambígua: ao mesmo tempo em que optam por uma religiosidade minoritária, relacionada na cultura nacional à prática do malefício, esperam que sua opção seja vista com “naturalidade”, como se não se tratasse de um caso desviante. Nos relatos colhidos, a hostilidade pode se evidenciar com algum grau de violência, especialmente no que se refere a estranhos. Uma das bruxas entrevistadas afirma que um desconhecido cuspiu-lhe, de dentro de um ônibus, chamando-a de “bruxa maldita”. Outra relata as ameaças que sofreu por telefone de sujeitos anônimos que afirmavam que ela não acreditava em Jesus Cristo e por isto “arderia no fogo do inferno”. Nesses dois casos, as bruxas em questão estavam mais expostas que as demais, pois assumiam publicamente sua religião, inclusive freqüentando programas de televisão no qual falavam sobre bruxaria. Entre as bruxas internautas, os evangélicos são vistos como os grandes vilões no que se refere ao preconceito contra as bruxas. Boatos sobre violência física de evangélicos contra bruxas circulam com alguma regularidade e as próprias bruxas afirmam que eles constituem um perigo real ao seu bem-estar físico. Há uma série de acusações elaboradas para os evangélicos, em especial, e para os cristãos, de um modo geral. Cristãos são vistos como machistas, “presos à razão” na forma da palavra escrita – enquanto as bruxas procuram formas de não razão, como a sensação e a emoção –, vivendo sob a idéia de temor a Deus e orientados apenas pelo divino, sem comprometimento com o indivíduo. Os evangélicos ainda são vistos como interessados em dinheiro – que, como indicado, é uma acusação que pesa entre as próprias bruxas –, proselitistas, manipuladores, arcaicos, chatos, preconceituosos e “incapazes de acessar o divino”. Formam-se, desse modo, categorias que atacam religiões que as bruxas vêem como oferecendo perigo à sua própria sobrevivência como indivíduos e como comunidade. Os atributos dos cristãos, sobretudo católicos e evangélicos, são aqueles rechaçados ao comportamento da bruxa e são inversos àqueles atributos definidos como específicos das bruxas wiccanas. O evangélico não é apenas um ator social a ser atacado, é um Outro. Essa categoria simboliza tudo o que uma bruxa não deve ser: ela não deve orientar suas práticas religiosas em função do ganho material, ela não deve ser proselitista, não deve ser machista e preconceituosa, não deve ser manipuladora, deve respeitar o livre-arbítrio e o indivíduo e deve dirigir-se ao divino não apenas pela mente, mas também pela emoção e pelas experiências sensoriais. Os católicos não sofrem tantas acusações quanto os evangélicos porque são sujeitos vistos como mais próximos ao paganismo. Seriam herdeiros da tradição pagã européia, superposta por uma roupagem religiosa cristã e pelo pensamento judaico-cristão. Dessa forma, datas e locais santos do catolicismo são freqüentemente associados a datas festivas e locais de culto pagãos. Há entre as bruxas pesquisadas um percurso religioso que freqüentemente começa no catolicismo ou no espiritismo. Há pouquíssimas bruxas provenientes do pentecostalismo. Assim, pode-se sugerir que os evangélicos tornaram-se sujeitos preferenciais das acusações das bruxas não apenas pelo seu comportamento em relação a elas – de acordo com o discurso das próprias bruxas –, mas também por não constituírem um núcleo religioso com o qual elas tenham mantido contato em algum momento de suas trajetórias religiosas pessoais. De qualquer forma, o rompimento com o cristianismo é um ponto sempre apresentado pelas bruxas internautas. Como pagãs, elas mantêm uma preocupação constante com o legado judaico-cristão e sua influência sobre as práticas da bruxaria. A forma encontrada para romper foi dupla: não apenas elas tornam-se pagãs, isto é, deixam de ser cristãs e abandonam as práticas cristãs, como aproximam o catolicismo do paganismo, como se a prévia experiência como católica não invalidasse a identidade de bruxa, pois o católico está mais próximo do paganismo do que o evangélico. Primeiro, é necessário esclarecer que o paganismo a que a grande maioria das bruxas se refere é sempre de origem européia, anterior à conversão cristã. Desse modo, o paganismo da Igreja Católica não se reporta a outras culturas. É possível ter acesso a essas outras culturas na prática da wicca. Isto depende apenas da bruxa, mas notase uma inclinação maior a mitologias, panteões e tradições européias do que africanas, asiáticas ou ameríndias, por exemplo. Em segundo lugar, devo dizer que o movimento duplo de ruptura comporta uma conversão e uma afirmação dessa conversão. Quando a bruxa declara que é pagã, ela não é mais cristã, e isto constitui uma conversão. Ela deve, portanto, romper com seus velhos hábitos, abandonando práticas cristãs. Por outro lado, a bruxa que abandona o catolicismo se converte a uma religiosidade que é vista como anterior àquela. Ela passa a ver no catolicismo práticas do paganismo. Assim, ela une novamente o que havia separado, preservando uma continuidade em seu percurso religioso. No caso das bruxas espíritas, o rompimento é ainda menos brusco. Muitas das concepções espíritas mantêm-se especialmente entre as bruxas internautas. A idéia de dom vinculada à de mediunidade (ser médium é um dom que identifica a bruxa), a noção de “pureza doutrinária” (não misturar concepções wiccanas com a religiosidade nativa, muito embora a noção de “pureza doutrinária” seja uma concepção nativa), a preocupação com a reencarnação e o karma são exemplos disto. É no conteúdo cristão que a bruxa espírita efetua o rompimento, não no conteúdo espírita. Quanto às demais categorias de acusação que as bruxas usam para aqueles que lhes atacam, estão: preconceituosa, ignorante, analfabeta, fanática, louca ou sem cultura. A bruxa que se sente acusada por uma pessoa que não é bruxa reage a essa acusação com uma contra-acusação. Nesse caso, ser preconceituoso, não ter cultura, ser analfabeto ou ignorante formam uma linha única de acusações que remetem à idéia de que aquele que acusa a bruxa – de malefício ou loucura – não sabe o que a bruxaria é na verdade. Falando sobre o que não conhece, ele comete erros. Por outro lado, fanático, “crente” e louco são acusações análogas. O crente é visto como um fanático, e o fanático é visto como louco, pessoa que não tem razão no que diz, que age sem conhecimento e que é
direcionado por uma pensamento único e obsessivo que não aceita nenhuma outra forma de expressão que não seja a própria. 


Comunidades virtuais 


O acesso à wicca no Brasil e a seus grupos de prática passa freqüentemente pela Internet. Como a liderança do grupo mais amplo pode ser disputada por meio da Internet? E por que essa disputa passa também por outros meios de comunicação? Se a identidade de bruxa não é uma que se defina pelos processos tecnológicos, é necessário verificar o porquê disto. Segundo Lévy (1999, p. 92), a Internet e o ciberespaço, definido por ele como o “espaço
aberto pela interconexão mundial dos computadores e das memórias dos computadores”, foram capazes de gerar comunidades virtuais.  Este é o conceito-chave para compreender como as bruxas disputam o domínio de seu grupo pela Internet. Com base na noção de que as listas de discussão formam comunidades, é possível perceber que as idéias veiculadas por meio delas têm um impacto real. As listas e as salas de bate-papo transformaram-se não apenas em instrumentos de disputa de um grupo, como parte da própria comunidade. A comunidade virtual, no caso das bruxas, é uma comunidade real, que promove encontros face a face e interações de diversos níveis. Ela é uma extensão do mundo concreto vivido por seus atores que, espalhados geograficamente por uma enorme extensão territorial, não seriam, de outro modo, capazes de manter contato. A questão territorial é importante no caso das bruxas: como analisado por meio dos questionários, mais da metade das bruxas reside na região Sudeste, espalhadas por seus quatro estados. Os principais núcleos de bruxaria no país (SP, RJ, MG, DF e PR) estão distantes para que se formasse uma comunidade regional. A Internet tornou-se o único instrumento capaz de aglomerar bruxas de todo o país em relacionamento e comunicação contínuos. As comunidades virtuais estão apoiadas no sistema de rede em que a Internet opera, bem como na noção de interconexão, que é a idéia de que qualquer possibilidade de comunicação é sempre preferível ao isolamento. Isto significa que as comunidades são formadas com a idéia de que a comunicação entre pessoas afins é preferível ao não-contato. Nesse sentido, Lévy (1999, p. 127) conceitua tais comunidades como “construídas sobre afinidades de interesses, de conhecimentos, sobre projetos mútuos, em um processo de cooperação ou de troca, tudo isso independente das proximidades geográficas e das filiações institucionais”. De fato, as listas servem para a troca contínua de informações e opiniões, independentemente das filiações, pois há alguns não-bruxos em listas sobre bruxaria. A afinidade de interesse pelo tema, a vontade de trocar conhecimento e de cooperar é o que faz com que as listas tomem a forma de comunidades virtuais. Como comunidades formadas em um meio de comunicação que funciona em termos de interação mediada pode vir a tornarse fundamental na disputa pela liderança e na sensação de pertencimento a um grupo? Ainda segundo Lévy (1999, p. 130), “uma comunidade virtual não é irreal, [...] trata-se simplesmente de um coletivo mais ou menos permanente que se organiza por meio do novo correio eletrônico mundial”. A Internet e as listas de discussão são meios de comunicação em que os sujeitos interagem de maneira mediada. Para Thompson (1998, p. 78), “as interações mediadas implicam o uso de um meio técnico (papel, fios elétricos, ondas eletromagnéticas etc.) que possibilita a transmissão de informação e conteúdo simbólico para indivíduos situados remotamente no espaço, no tempo ou em ambos”. Surge a idéia de que a Internet é um veículo de interação dos sujeitos. Essa interação não se limita ao ciberespaço. Para Lévy (1999, p. 128), “é raro que a comunicação por meio de redes de computadores substitua pura e simplesmente os encontros físicos. Na maior parte do tempo, é um complemento ou um adicional”. É possível compreender agora por que as listas de discussão freqüentemente engendram reuniões e encontros, nos quais seus membros vêm efetivamente a se conhecer. A Internet torna-se um instrumento de interação, mas não seu único palco. Ela funciona para aglomerar as bruxas e fazer com que conheçam outras como elas. É um espaço de sociabilidade que permite a formação de um grupo – uma comunidade – baseado em noções de pertencimento e alteridade. Isto está indicado nas acusações de não-pertencimento ao grupo anteriormente mencionadas. A Abra-Wicca vem, nesse sentido, servindo como um outro locus de sociabilidade baseada nessas mesmas noções, pois dela apenas fazem parte bruxas wiccanas. A idéia de disputa de liderança na Internet pode ficar mais explícita se compreendermos que as comunidades virtuais atuam, também, em uma base forte de moral social e freqüentemente apresentam um conjunto de leis não-escritas que regem suas relações (Lévy, 1999). Uma espécie de “etiqueta” é formulada, na qual a moral máxima é a da reciprocidade: o que é aprendido nas trocas e contatos no ciberespaço deve ser repassado. O que decorre desse procedimento é a construção de uma reputação de competência. A participação em uma lista de discussão pode ser importante para a construção de tal reputação entre as bruxas, especialmente quando sua comunidade se encontra mais no plano virtual do que face a face. Essa disputa está freqüentemente inserida em meios de comunicação que não se limitam à Internet, mas incluem também a televisão, o rádio, jornais, revistas e livros. Partindo da idéia de que “os meios de comunicação têm uma dimensão simbólica irredutível: eles se relacionam com a produção, o armazenamento e a circulação de materiais que são significativos para os indivíduos que os produzem e os recebem” (Thompson, 1998, p. 19), então eles tornam-se recursos que podem aumentar o poder de determinados indivíduos, uma vez acumulados. Isto quer dizer que o acesso e a freqüência desse acesso à imprensa de um modo geral é significativo de uma determinada posição no escopo de liderança no grupo da bruxaria moderna no Brasil. O maior ou menor acesso a grandes redes de televisão e a seus principais programas, bem como às principais revistas e jornais, é um recurso que a bruxa que disputa a liderança desse grupo tem em mãos para definir a sua posição. Quanto maior o acesso a esses recursos, maior o poder de competição. É por isto que muitas das acusações dizem respeito às aparições públicas e midiáticas. Elas são a medida dos recursos disponíveis para disputar a liderança de um grupo em expansão.


Entre o tradicional e o moderno

 Bruxa é uma categoria que remete a um sujeito tradicional, um operador de magia, sujeito místico – até mesmo religioso. Como esse sujeito tradicional vem aportar nas praias modernas dos computadores e formula, na Internet, uma comunidade de sujeitos iguais a ele? A bruxa de hoje é uma pessoa que está constituindo uma palavra, ganha novos seguidores. Como a liderança da wicca tem sido disputada no Brasil, a mídia tornou-se mais uma ferramenta. A bruxa que não é pública é uma bruxa que não existe. A Internet tornou-se outro veículo de disputa dessa liderança, quando se apresentou como um meio capaz de formar uma comunidade. Ela permite uma interação com uma resposta clara e um resultado que pode ser quantificado. Também apresenta-se como um meio contínuo de influência sobre o grupo, por parte das lideranças. Na Internet, as bruxas formaram uma comunidade e é só por meio dela que uma comunidade em termos nacionais pode ser pensada. Sem a Internet, as bruxas não estariam se conhecendo e trocando informações com a rapidez que isto ocorre, contribuindo para uma certa homogeneização das práticas e opiniões. A Internet deve ser vista como um espaço de desenvolvimento da wicca no país. Ela ajudou a formar uma comunidade que vai além do coven e que atinge todas as bruxas que queiram nela se inserir. Ajuda, dessa forma, a definir o próprio grupo. Não apenas a rede virtual, mas toda a gama de meios de comunicação é fundamental na manutenção e reprodução desse grupo no país. Isto leva a uma reflexão sobre o impacto das novas tecnologias na formação de novos grupos e na reprodução e manutenção destes, bem como de grupos já estabelecidos. Não seria inadequado sugerir que, sem esses meios, os wiccanos seriam um grupo ainda menor numericamente, pois muitos dos novos praticantes tomam conhecimento da wicca por meio da rede virtual. Para aqueles aos quais a literatura impressa foi fundamental, a rede virtual fornece um meio de sociabilidade com outros praticantes. De uma forma ou de outra, sem essa nova tecnologia o grupo nacional não existiria.

Considerações finais

Tentei demonstrar, no presente trabalho, como os meios de comunicação, sobretudo a rede virtual, podem ser utilizados por determinados grupos como uma ferramenta fundamental para sua manutenção e reprodução. Para um grupo como o pesquisado, numericamente pequeno e espalhado pelo país, a Internet é uma ferramenta valiosa, pois se tornou locus de sociabilidade e palco onde se desenrolam disputas por liderança e visões do que seja a bruxaria wicca, bem como por onde se propagam crenças e idéias do grupo. Mais do que um meio de comunicação, a Internet forma comunidades virtuais, que operam segundo uma etiqueta e buscam, no espaço virtual, o mesmo que buscam fora da rede. Sem a Internet, o grupo de wiccanos brasileiros dificilmente poderia ser compreendido como um grupo nacional, mas talvez apenas como grupos locais, em relativo isolamento. A construção de um espaço nacional permite a comunicação em uma língua franca e dinâmica,
que reproduz e constrói crenças e diretrizes, bem como se apropria do ethos virtual da troca de informações como um mecanismo para essa propagação de idéias. Se passar adiante pela rede (net) o que foi aprendido por intermédio dela faz parte da netiqueta, a própria rede tornase espaço privilegiado para grupos que não poderiam, de outra maneira, manter contatos freqüentes, de forma quase instantânea, como é o caso nos chats. A etiqueta da Internet funciona, assim, como um dos elementos que permite, ou legitima, que ela tenha se tornado espaço da construção e manutenção desse grupo e que seja utilizada como palco onde adversários entram em conflito por questões de liderança, sem esquecer que, por trás dessa liderança, existem concepções distintas do que a wicca é ou deveria ser no Brasil.
 

Referências

CAIAFA, Janice. Movimento punk na cidade: a invasão dos bandos sub. 2. ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1988.
COSTA, Maria Regina. Os ‘Carecas do Subúrbio’: caminhos de um nomadismo moderno. Petrópolis: Vozes, 1993.
EVANS-PRITCHARD, E. E. Bruxaria, oráculos e magia entre os Azande. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1976.
FRAZÃO, Márcia. Revelações de uma bruxa. 5. ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1994.
_____. Manual mágico do amor. Rio de Janeiro:
Francisco Alves, 1995.
_____. Cozinha da bruxa. 9. ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1996.
_____. O gozo das feiticeiras. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1996.
_____. O feitiço da lua. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1997.
_____. O oráculo dos astros. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1998.
_____. A panela de Afrodite. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2000.
GRIMASSI, Raven. Os mistérios wiccanos: antigas origens e ensinamentos. São Paulo: Gaia, 2000.
HEELAS, Paul. A Nova Era no contexto cultural: pré-moderno, moderno e pós-moderno. Religião e Sociedade, Rio de Janeiro, 17/1-2, 1996. p. 15-32.
LÉVY, Pierre. Cibercultura. São Paulo: Editora 34, 1999.
MAGGIE, Yvonne. Medo do feitiço: relações entre magia e poder no Brasil. Rio de Janeiro: Arquivo Nacional, 1992.
MALUF, Sônia. Encontros noturnos: bruxas e bruxarias na Lagoa da Conceição. Rio de Janeiro: Rosa dos Tempos, 1993.
PRIETO, Claudiney. Wicca: ritos e mistérios da bruxaria moderna. São Paulo: Germinal, 1998.
THOMPSON, John B. A mídia e a modernidade. Petrópolis: Vozes, 1998

quarta-feira, 12 de julho de 2017

OS GATOS E A BRUXARIA NÓRDICA


Os gatos como animais domésticos são companheiros do homem desde o período Neolítico. Na Escandinávia da Alta Idade Média eles eram muito empregados como animais protetores das fazendas, mas também eram percebidos em termos religiosos. Nas sagas islandesas, algumas praticantes de seidr utilizavam luvas e acessórios feitos de gatos brancos, relacionados simbolicamente com a deusa Freyja. Para Hilda Davidson, isso é um elemento que indicaria que os gatos seriam alguns dos espíritos animais utilizados pelas videntes em suas jornadas xamânicas. Segundo Brenda Prehal, na sociedade nórdica pré-cristã o gato era associado com a fertilidade (cabeças de gato eram vistas como objetos propiciadores), o mundo da casa e utilizado como proteção mágica. Também no barco funerário de Oseberg foram encontrados diversos objetos e relevos com formas de gato, como um poste (figura 1), conectando estes animais com o mundo dos mortos e a deusa Freyja.

Na Europa continental, durante a Antiguidade até meados do feudalismo centro-medieval, os gatos controlavam a população de ratos em cidades e mosteiros, sendo uma figura extremamente positiva. Muitos santos eram associados com gatos, sendo Santa Gertrudes de Nivelles a sua patrona; Santa Agartha era chamada de a “gata santa” e Santo Yves era representado como um gato. Em diversos manuscritos datados dos séculos XI e XII, os gatos são representados geralmente em cores claras, definidos como predadores de ratos pretos e um animal tipicamente doméstico. Algumas iluminuras o associam com a mulher de Noé, enquanto este patriarca é relacionado ao cachorro. Desde modo, percebemos que os felinos também eram símbolos do feminino e figuras positivas para a cristandade desta época.

Figura 1: Poste com cabeça de gato (174) da sepultura de Oseberg (Noruega, séc. IX).
Fonte: Prehal, 2011. Figura 2: Freyja voando em um gato, Catedral de Schleswig-Holstein,
Dinamarca (atual Alemanha), séc. XII.


É com o início do imaginário da bruxaria enquanto seita diabólica e herética que este animal ganhou conotações malévolas para o imaginário cristão, a partir do século XIII. Em 1232 o decreto papal Vox in Rama conclamava para a perseguição dos heréticos. Neste documento, o papa Gregório IX descreve as atividades do diabo no norte da Alemanha, incluindo uma cerimônia de iniciação, onde os participantes realizam um obsceno beijo em um grande gato preto. É o início de uma perseguição e de um preconceito que se mantém até nossos dias em relação aos felinos de coloração escura. Isso colaborou em parte para a extensa difusão da peste negra no século XIV, pois os ratos propagadores da peste bubônica já não tinham predadores em muitas cidades e vilas, visto que os gatos haviam sido exterminados pela população em geral. 
Na Escandinávia após a cristianização, percebemos que ao mesmo tempo em que algumas simbolizações antigas foram preservadas (em termos de pensamento e práticas mágicas), elas se incorporam aos poucos ao novo
imaginário introduzido pelo continente, mas essa transição não é fácil de ser
estudada. Um dos melhores exemplos disso é a imagem preservada na catedral de Schleswig-Holstein (Dinamarca, atual Alemanha), realizada em 1200. Freyja parece voar em um grande felino de cores claras, sem roupa e portando um corno (figura 2) – uma imagem claramente pagã em um contexto cristão, mas não percebemos ainda nesta pintura uma associação direta com a noção de heresia ou de mal diabólico.

Uma narrativa preservada em uma saga islandesa parece apontar mais diretamente para o novo imaginário, onde o gato preto foi associado com o mundo maligno das trevas. Na Vatnsdæla saga 28 (c. 1300) um homem chamado Þórólfur sleggja vivia na região de Vatnsdalr (norte da Islândia), com 20 enormes gatos pretos e selvagens, gerando um grande medo em seus vizinhos. A casa de Þórólfur acabou sendo queimada, mas mesmo após a sua morte as pessoas evitavam o local por pavor dos gatos.

Figura 3: O demônio surge como um gato preto diante de um santo e sobe por uma forca,
manuscrito KB 72 A 24 fol. 313v, 1400-1410. Figura 4: Figura de gato entre um demônio e uma mulher, Igreja de Maria Madalena, Dinamarca (1475-1510).


Mas além do novo imaginário criado na cristandade, os gatos ainda eram usados para operações mágicas no cotidiano da população. Algumas praticantes de magia da Suécia que foram presas e condenadas pela inquisição durante o baixo medievo, puderam ter parte de suas práticas desveladas, como galna kadhrin (Catarina a louca) em 1471 e Margarida em 1490. Entre os principais elementos utilizados para a feitiçaria amorosa, por exemplo, estavam cabeças e os cérebros de gatos – mas para objetivos diferentes: enquanto Catarina utilizou o feitiço para reaver o amor perdido para uma mulher, Margarida empregou o mesmo para causar impotência em um homem. Outra tradição mágica conhecida na Escandinávia (mas original da Alemanha) era a crença nas pedras de gato, supostamente encontradas no crânio dos felinos e que teriam propriedades de aumentar o desejo sexual.

Uma das últimas referências medievais nórdicas sobre este animal é uma pintura encontrada na igreja de Maria Madalena (Dinamarca), realizada entre
1475 a 1510 (figura 4). Nela, um gato encontra-se entre uma mulher e um demônio, entrelaçando-se para lamber suas partes íntimas. Segundo Stephen
Mitchell, trata-se de uma representação do diabo. Assim, de uma concepção positiva, onde o animal foi um símbolo de divindade, agora ele passa a ser a própria representação do maligno e das trevas. Com a imensa propagação deste último imaginário na modernidade, o gato preto ainda é visto em termos extremamente negativos, demonstrando que a superstição e o medo não são características apenas do passado remoto, mas infelizmente ainda persistem em nosso tempo.

Autor: Prof. Dr. Johnni Langer (UFPB/NEVE)



Referências:

BOYER, Régis. Le monde du double: la magie chez les anciens Scandinaves. Paris:Berg, 1986.
HEDEGUS, Susan. The unlucky black cat. Cat World, 2010, pp. 40-41.
HEDEGUS, Susan. Exploring the symbolic feline presence in art´s biblical
masterpieces. The Universe, 10 de fevereiro de 2008, pp. 16-19.
MITCHELL, Stephen. Witchcraft and Magic in the Nordic Middle Ages.
Philadelphia: University of Pennsylvania Press, 2011.
PREHAL, Brenda. Freyja´s cat: perspectives on recent Viking Age finds in
Þegjandadalur North Iceland. Dissertação de Mestrado em Artes, Nova
York: Hunter College, 2011.
WERNESS, Hope. Cat. The continuum encyclopedia of animal symbolism in art.
New York: Continuum, 2006, pp. 72-76.

domingo, 9 de julho de 2017

Mandrágora: Uma abordagem da magia ao seu uso farmacológico.


A Mandragora é uma planta da família das Solanáceas, cuja principal característica é a presença de uma raiz bifurcada que lembra a figura humana, motivando inúmeras lendas e superstições. Faz parte do folclore de algumas regiões onde é mencionado seu poder de fecundidade, de dar riquezas e sorte no amor.
    Existem muitas espécies de Solanáceas de interesse homeopático: Datura stramonium, Hyosciamus niger, Atropa belladonna, Solanum dulcamara, Capsicum annum e Nicotiana tabacum.
Algumas Solanáceas são comestíveis como a batata, a berinjela, o tomate, a pimenta e o pimentão.
Outras tem em comum a presença de alcaloides (hiosciamina, escopolamina e atropina) que são tóxicos por bloquear o sistema nervoso parassimpático, podendo levar a sintomas de envenenamento, que serão abordados oportunamente.
Esses alcaloides tem atividades estimulantes e alucinógenas, o que atrai o interesse de jovens adultos para o uso dessas espécies na preparação de chás entorpecentes.
A toxicidade provém da ação anticolinérgica dos alcaloides que inibem a acetilcolina em efetores autônomos e na musculatura lisa causando vários sintomas, tais como, broncodilatação, inibição das secreções salivares, brônquicas e sudoríparas, dilatação da pupila e bloqueio dos efeitos vagais sobre o coração, levando a um aumento da frequência cardíaca.
A Mandragora é uma erva perene de até 30 cm, com talos curtos e uma raiz tuberosa, grossa, semelhante ao nabo e que frequentemente pode apresentar uma forma que lembra a do corpo humano.
É encontrada em prados úmidos, às margens dos campos e dos rios, na Espanha, em Portugal, na Itália, na Grécia, no Oriente médio e no Himalaia.

Uso da planta

            A Mandragora tem sido usada desde a Antiguidade, existindo relatos que datam há cerca de 1.500 a.C., mas foi durante a Idade Média que alcançou maior aceitação. Existem diversos usos relatados:

Afrodisíaco - sua raiz foi usada para filtros amorosos (aqueles que a ingerissem juntos, permaneceriam apaixonados eternamente) e para combater a esterilidade. Na Bíblia é citada em Gênesis capítulo 30, versículos 14-15-16, onde Raquel disputa com sua irmã Lia, as Mandragoras encontradas por Rubens. Nessa passagem Raquel a utilizou para combater sua esterilidade.

Psicotrópicos - graças aos seus alcaloides a planta foi usada como anestésico e soporífico. Nas tumbas faraônicas, como a de Ramsés III, aparece representado o fruto da Mandragora e o do Opium. Na Palestina preparavam um forte anestésico amargo para crucificados, conhecido como morion.
                                
Venenos - Lucrécia Borgia utilizava a raiz de Mandragora pulverizada e mesclada com vinho para envenenar seus oponentes. Os sintomas do envenenamento consistem em transtornos gástricos, debilidade, abatimento, perda da sensibilidade, podendo culminar em coma e morte.


Histórias, lendas e a magia contida na Mandragora

            Na história da Mandragora houve diversas citações envolvendo desde seu lado de mistério e magia, até seus usos medicinais.Pitágoras indicava que a Mandragora era usada nos cultos de muitos povos como erva mágica, devido ao formato humano da raiz.Algumas lendas devem ser relatadas para que se possa ter uma ideia do que esta planta representava.
            Para sua colheita havia um sério ritual, descrevia-se com uma espada três círculos ao seu redor antes de arrancá-la, devendo-se estar olhando para o poente. Outros desenterravam ao redor da raiz e então a amarravam a um cão que, ao atender ao chamado para sair do local, morria a seguir como vítima propiciatória. Para outros só era possível arrancá-la se antes fosse rodeada com urina de mulher ou sangue de menstruação. Relata-se que a raiz da Mandragora, ao ser desenterrada sem um ritual preparatório, gritava e gemia de tal forma que colocava louco ou matava quem a arrancasse.  

      
            Também acreditava-se que a Mandragora crescia junto às forcas e que seu poder afrodisíaco vinha daí, pois o enforcado ejaculava na terra ao cair pendurado, e nesse local nasciam as plantas.
            Era chamada a raiz da loucura, usada pela bruxa Circe, que transformava homens em animais pela sua magia.  
Na mitologia grega estava relacionada a Hécate, a deusa da magia, da sabedoria, da intuição, e ligada ao arquétipo da parteira (que ajuda no momento do nascimento e também no da morte).
            Na Idade Média a Mandragora era conhecida com alraum (que significa raiz que tem figura humana), sendo considerada um talismã mágico que trazia sorte e bens terrenos.
            No século XVI queimava-se a Mandragora e guardava-se as cinzas envoltas em lenços de linho ou seda, na crença de que seu portador jamais seria infeliz.
            Como remédio foi usada desde a Antiguidade como antidepressivo, sedativo e anestésico em casos de cirurgias. Paracelso conhecia-a como efetiva para calculose renal e sedativo para epilepsia, coreia e tosse. Em outro relato era utilizada para inflamações dos olhos, para adiantar a menstruação e provocar trabalho de parto.
            Dioscórides explicava que a Mandragora colocada no liquor faz melhorar a melancolia, mas dose exagerada levava a morte.
            Na literatura houve citação da lenda em Romeu e Julieta de Shakespeare, na cena em que Julieta irá beber um líquido que a fará parecer como morta, ela adverte para soar uma trombeta antes de retirar a Mandragora do solo, para não ouvir seus brados e enlouquecer.
            Maquiavel escreveu a comédia A Mandragora que foi uma das primeiras do teatro moderno, onde mostra o uso da planta para tornar fértil as mulheres estéreis.
Era utilizada pelos bruxos como unguento antes dos feitiços e também como preparados que produziam terríveis alucinações. As raízes eram talhadas para aumentar sua semelhança com a figura humana, sendo então usadas como amuletos para atrair boa sorte ou para exorcizar demônios.
A raiz é a parte mais curiosa dessa planta, pois cresce como uma batata, muitas vezes bifurcada, ganhando traços semelhantes ao de um pequeno homem. Por conta do curioso formato humano é que a fama "mágica" das mandrágoras se difundiu rapidamente. Pitágoras se referiu a mandrágora como "antropomorfa". O agrônomo romano Lúcio Columela a definiu como "semi-homem". Na ilustração abaixo, do antigo botânico e autor greco-romano Pedanio Dioscórides Anazarbel podemos ver a mandrágora representada com forma humana.
Na Alemanha era costume entre os camponesses talhar e cuidar muito bem das raízes de mandrágora, par usá-las em magias e advinhações. Existia uma crença de que as raízes talhadas com formas humanas responderiam aos questionamentos de seus donos, como se a planta ganhasse vida própria.
Até hoje a mandrágora é usada por magistas, principalmente em magias de proteção, aumento do poder pessoal, coragem e amor. É um poderoso concentrador fluídico e para carregá-la com seu poder pessoal, você pode deixá-la durante três dias embaixo da sua cama, no período da lua cheia. Por ser uma planta européia, é bem complicado conseguir mandrágora no Brasil.


Segundo Raven Grimassi no seu livro “Old World Witchcraft” as flores da Mandrágora simbolizam a alma iluminada que emerge de seu mundo material de experiências. O fruto da Mandrágora representa a alquimia espiritual, o fruto que é produzido através da realização de cada encarnação. As folhas significam as influências que se espalham para fora no mundo através das ações da personalidade que é usado pela alma. Estas são as chaves a serem observadas e temos de colocar para fora e elaborar suas intenções mágicas quando se usa partes da Mandrágora. Na antiga tradição da Mandrágora, há um espírito feminino conhecido como Mandragoritis da Mandrágora. Este espírito supervisiona a planta em si e é chamado quando se trabalha com mandrágoras. Mandragoritis não permanecem no interior da Mandrágora mas em vez controla os espíritos que fazem (e neste sentido pode ser pensada como sua rainha).    Na tradição as plantas possuem uma natureza de gênero. O "mandrake branca" (Mandragora officinarum) é o macho, e o "mandrake negro" (Mandragora autumnalis) é a planta fêmea. Alguns profissionais preferem chamar a fêmea Mandrágora e o macho Mandragoro. Mas também pode ser útil para identificar-se com o sexo de cada Mandrágora usando a nomes masculinos e femininos. A obtenção de uma raiz de mandrágora pode ser muito desafiador. Em algumas lojas de bruxa você pode ser capaz de encontrar raízes de mandrágora secas (às vezes misturadas com folhas). Neste caso, é provável que você não vá saber o sexo da planta.
A mandrágora no cinema no filme "Harry Potter e a Câmara Secreta" as mandrágoras da estufa de herbologia dão um escândalo quando são retiradas do solo pelos alunos de Hogwarts, mas o grito das mandrágoras tem uma explicação folclórica.  Shakespeare, na sua clássica obra "Romeu e Julieta", fez a seguinte referência a mandrágora: "Gritavam como mandrágoras arrancadas da terra que levavam à loucura os mortais que as ouvissem".    
Segundo uma lenda medieval a raiz da mandrágora era como um pequeno homem dormindo dentro da terra e, ao ser retirado de seu descanso, dava um grito tão agudo que era capaz de deixar surdo, enlouquecer e até mesmo levar alguns homens a morte. Com base nessa crença, foram sendo criadas várias técnicas para se retirar a mandrágora do solo sem sofrer com o grito da planta.
Alguns tapavam os ouvidos, afofavam a terra ao redor da mandrágora, amarravam a planta ao pescoço de um cachorro e faziam com que o mesmo corresse, arrancando a raiz do solo.


Temos uma cena do fime "Labirinto do Fauno" onde a mandrágora é posta mais uma vez.

Utilização Homeopática

            Apesar de conhecida desde remotos tempos, houve uma lastimável demora para que se experimentasse a Mandragora homeopaticamente.
            Somente em 1920 é que Allen publicou na Enciclopedia de Matéria Médica Pura as primeiras experimentações da Mandragora, realizadas em 1834 (Dr. Dufresne) e 1874 (Dr. Richardson).
            Em 1951 foi ricamente experimentada por Julius Mezger, que ampliou os conhecimentos homeopáticos a respeito desta planta, tendo experimentado em 30 médicos.
            Raedson fez outra experimentação em 1963/64 em 15 pessoas observando em todas elas o aparecimento de fortes dores articulares, e em 12 vezes dores de cabeça, depressão e dificuldade para concentrar-se.
            Em 1980 Edward Whitmont fez experimentação a partir das folhas sem observar diferença em relação às outras experimentações que usaram a raiz.

Sintomas Mentais

            Do ponto de vista mental, a Mandragora causa peculiar paradoxo de sonolência e entorpecimento junto com intensa excitação, ocorrendo uma irritabilidade apática. Há tendência a depressão, com apatia ou irritação, podendo bruscamente alternar com euforia e alegria. Há estados de deliro e de confusão mental, hipersensibilidade aos ruídos, sentimento de insegurança e ansiedade, falta de concentração e de memória, aversão ao trabalho, mudança de humor, acessos de choro alternado com euforia ou agitação exagerada. São indivíduos hipersensíveis, histéricos, com tendência a estados hipomaníacos ou maníaco-depressivos, acompanhado por sintomas psicossomáticos.
            Os indivíduos Mandragora se comportam como se estivessem sob domínio da magia da planta, ora estão entorpecidos e anestesiados, ficando indiferentes ao prazer e ao trabalho, ora estão excitados, eufóricos, com visões terríveis e fantasmagóricas, agindo como que enlouquecidos.



Do diagnostico a uma abordagem sobre o delírio:

Os sintomas em comum são devidos a inibição do parassimpático, obsevando-se congestão cerebral (mais ativa em Belladonna), cefaléia congestiva e pulsátil, midríase, mucosas secas, taquicardia, hipertermia, obstipação e alternância de excitação e depressão.

•    Mandragora - o delírio é semelhante aquele dos que estão enfeitiçados pela planta. Há loquacidade, com fala sem sentido e incompreensível, agitação psicomotora, inquietude e incapacidade de permanecer parado, embora sem conseguir andar por sentir dormência de membros inferiores e sensação de que está com as pernas paralisadas (lembrando o estado do indivíduo embriagado), sendo que a violência encontrada nas outras solanáceas não compõe sua síndrome mínima.
•    Hyoscyamus - há um delírio maníaco, com movimentos carfológicos: fala com loquacidade de assuntos relacionados às suas atividades habituais (delírio ocupado) e também fala temas religiosos, mudando rapidamente de um tema a outro e tomando atitudes eróticas (o indivíduo tira suas roupas e expõe seus genitais). Este delírio agitado alterna com delírio tranqüilo onde balbucia ou murmura palavras desconexas, predominando este quadro de debilidade e fraqueza, que vai aumentando até cair num estado de estupor, comportando-se como morto.
•    Stramonium - durante o delírio os olhos ficam muito abertos, há agitação, violência e ausência de dor. Fala línguas estranhas, grita, chora ou ri, dança com loquacidade extraordinária, crê estar vendo espíritos e conversa com eles, comporta-se como se estivesse possuído. Ocorre delírio erótico (arranca as roupas) e delírio religioso à noite (canta louvores com desespero por sua salvação).
•    Belladonna - o delírio é muito violento, furioso, bate a cabeça na parede e arranca o cabelo; loquacidade, mudando de um assunto para o outro, sem que haja conexão entre eles e sem concluí-los. Fala sobre temas religiosos, delira sobre cachorros, ladra, deseja morder, alucina que vê gatos, que vê cachorros, que é um cachorro ou outro animal. Pode atacar com violência, com desejo de matar e colocar fogo em tudo.

Ainda cabe lembrar Canabis indica pelo lado alucinógeno (entretanto a agitação dos indivíduos Mandragora é mais marcante), e também Opium onde a alienação, a parca atividade, a hipotonia e hiposensibilidade fazem a diferença, apesar da característica do aspecto narcotizado que se encontra nos dois pacientes.

Com o estudo da Mandragora tem-se à mão uma nova prescrição para aqueles pacientes com artrose, gota e ciática, que já foram tratados com inúmeros medicamentos e sem grande melhora, podendo obter alívio com o uso organicista deste medicamento.
Por outro lado, abre um novo horizonte para aqueles pacientes que vem usando Belladonna ou Hyoscyamus ou Stramonium e que não estão progredindo, apesar do medicamento ter sido bem escolhido. Talvez sejam Mandragora!
Pela experiência clínica o que se sabe é que dos quatro medicamentos a Mandragora apresenta sintomas mais atenuados e com evolução mais crônica dos mesmos.  

REFERÊNCIAS

ALLEN, T.F. The encyclopedia of pure materia medica. New Dehi: B. Jain Publisher, 1920.
BÍBLIA Sagrada. São Paulo: Sociedade blíbica do Brasil, 1988.
BRUNINI, C; SAMPAIO, C. Matéria médica homeopática IBEHE. São Paulo: Mithos, 1982, p. 179-197.
DAVIS, J.D. Dicionário bíblico. 4.ed. Rio de Janeiro: Casa Publicadora Batista, 1973, p. 375-376.
Dra Lia Rachel B. Romano é médica clínica geral, Mestre em Homeopatia
FONT QUER, P. Plantas medicinales - El dioscorides renovado. 5.ed. Barcelona: Editorial Labor S/A, 1981, p. 590-595.
KURY, M.G. Dicionário de mitologia grega romana. 2.ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor Ltda, 1992, p. 83 e 172.
MEZGER, J. Ensinamentos sobre medicamentos homeopáticos. Heidelberg: Editora Haug Verlag, 1985.
NUÑES, D.R. La guia de incafo de las plantas útiles y venenosas de la península ibérica y baleares. Madri: INCAFO AS, 1991, p. 803-805.
_______ Mandragora, quadro farmacológico e experiências. Jornal Geral Homeopático nº 209, 1964, p 107.
GRUMASSI, Raven  - Old World Witchcraft (1 de outubro de 2011)
SHAKESPEARE, W. Romeu e Julieta (ato IV cena III). Rio de Janeiro: Companhia José Aguilar Editora, 1969.
WHITMONT, Edward C. Psique e substância - A homeopatia à luz da psicologia junguiana. São Paulo: Summus, 1989.
TYLER, M. L. Retratos de medicamentos homeopáticos. São Paulo: Livraria Santos Editora, 1992, p.128-138, 334-347, 443-450.
VIJNOVSKY, B. Tratado de matéria médica homeopática. Rio de Janeiro: MUKUNDA, 1987. v.2, p. 339-341.
VOISIN, H. Manual de matéria médica para o clínico homeopata. São Paulo: Andrei Editora, 2ªed, 1987.

sábado, 8 de julho de 2017

A BRUXARIA ANTES DA WICCA


"Witchcraft Before Wicca" por Michael Howard
Traduzido por Iohan sob autorização do autor.

 

Atualmente a imagem popular da bruxaria na mídia de massa e nos livros e revistas é amplamente definida pela Wicca. Como sabemos a bruxaria moderna não se iniciou com Gardner e ela tem uma história oculta antes mesmo dele nascer. A partir dos anos 1800 havia vários avivamentos da bruxaria na Grã-Bretanha baseados em precedentes históricos. Estes foram retirados de crenças e práticas registradas do culto das bruxas medievais e cunning people [1] rurais ou magos populares, avivamentos do paganismo clássico e fontes de magia cerimonial, diabolismo e neo-druidismo e também foram influenciados pelo Rosacrucionismo e Maçonaria. Hoje, tais formas de bruxaria tradicional pré-wiccana são também conhecidas como “Arte Tradicional”, a “Antiga Arte”, a “Velha Arte”, a “Arte Sabbática”, a “Arte Sábia”, “A Arte Sem Nome” e o “Caminho Sinuoso”.

Há uma abundância de evidências a partir de fontes históricas, contos folclóricos, casos judiciais e, mais tarde, reportagens de jornais na Grã-Bretanha, das atividades destes então chamados cunning folks e outros praticantes de magia que eram popularmente considerados como bruxos. Nas crenças e terminologia popular, eles eram também conhecidos como “bruxas brancas”, “magos”, “feiticeiros”, “conjuradores”, “prestigitadores”, “planet readers” (astrólogos) e “hedge doctors” (herbalistas). Estes praticantes de magia operavam amplamente nas áreas urbanas e rurais das Ilhas Britânicas e eram consultados por todas as classes sociais, de trabalhadores rurais aos donos de grandes propriedades rurais e ricos da classe-média nas cidades.

Estes assim chamados “bruxos” ofereciam uma ampla gama de serviços aos seus clientes. Eles eram popularmente creditados de possuir a Segunda Visão ou a habilidade de prever o futuro, exorcizar fantasmas e banir espíritos e poltergeists, lançar feitiços para atrair amor e dinheiro, localizar posses perdidas ou roubadas e pessoas desaparecidas usando divinação ou pela consulta à espíritos e curar humanos e animais doentes usando a “imposição das mãos” ou remédios herbais. Mais importante, na medida em que os seus clientes estavam preocupados, elas podiam contra-atacar os feitiços nefastos lançados pelos então chamados bruxos “cinzas” ou “negros”. Em alguns casos, o cunning folk até mesmo agiu para a população em geral e autoridades como caçadores de bruxas não oficiais. Entretanto, acreditava-se que todos estes tipos de bruxas eram capazes de curar e amaldiçoar, enfeitiçar e curar.

Embora haja semelhanças óbvias com algumas das práticas mágicas modernas realizadas por wiccanos, a maioria dos métodos e técnicas usadas pelas bruxas dos tempos antigos têm pouca semelhança com aqueles utilizados pelos atuais bruxos neo-pagãos. Muitas vezes os cunning folks praticavam uma adoração por ambas as mãos e para os encantos, amuletos, orações e encantamentos, eles costumavam invocar Jesus, a Virgem Maria, a Trindade e a companhia dos santos. Os salmos eram usados para propósitos mágicos como feitiços e eles ainda são em alguns círculos modernos de bruxaria tradicional. Com a chegada da nova fé do Cristianismo e com a supressão das antigas religiões pagãs, objetos como crucifixos, medalhões de santos, a hóstia e a água benta foram amplamente utilizados pelos magistas populares porque acreditava-se que eles possuíam “virtude” ou energia mágica e poder de cura inerente.

O simbolismo cristão era usado em rituais de magia popular envolvendo proteção psíquica, contra-feitiços e cura. Muitos dos antigos encantos pagãos foram cristianizados e alguns santos pegaram os atributos anteriores de deuses e deusas pagãos. Fontes sagradas anteriormente dedicadas a deusas, por exemplo, foram re-dedicadas a Virgem Maria ou a santas femininas como Winifrida e Brigite. Encantos de cura substituíram os nomes de deidades pagãs como Odin, Loki e Thor por aqueles de Deus, Jesus e do Espírito Santo. Muitos dos grimórios usados pelas bruxas e pelos praticantes de magia popular também continha simbolismos judaico-cristão.

Alguns modernos bruxos tradicionais ainda seguem uma adoração de ambas as mãos usando salmos para propósitos mágicos, trabalhando na companhia dos santos e empregando imagens, simbolismo e liturgia cristã, geralmente de forma herética e subversiva. Isto é parecido a algumas práticas similares que podem ser encontradas no vodu, hudu e Santeria. Macumba, ju-ju e abeah na América do Sul e do Norte e África. Em comum com as bruxas e  o cunning folk do passado, a moderna bruxa tradicional também cura ou amaldiçoa na medida do necessário.

Uma quantidade considerável do velho paganismo sobreviveu na crença popular no Povo Bom ou fadas. Há muitos exemplos históricos de bruxas e do cunning folk viajando por uma hollow hill [2] ou montanhas ou visitando um túmulo pré-histórico para encontrar a Rainha de Elfame (“elf home” ou Terra das Fadas). Alguns mortais entram em “casamentos feéricos” com os então chamados amantes do demônio e em troca eles são instruídos em técnicas de cura e divinação, herbalismo e concessão da Visão. Estes dons são passados de geração em geração como no caso dos famosos “fairy doctors” ou médicos de Mydffai no Sul da Gales, que recebiam seu conhecimento herbal de uma “Dama do Lago” local.

Esse conhecimento de encantamentos mágicos, ervas medicinais e conhecimento secreto das plantas foi passado oralmente em família ou por meio de textos escritos. Muitos do cunning folk e bruxas dos séculos XVIII e XIX eram pessoas alfabetizadas e vários dos cunning men mais famosos ou magos eram médicos, professores e até mesmo clérigos. Grimórios como o medieval Clavícula de Salomão e livros sobre magia, adivinhação e astrologia estavam livremente disponíveis. Eles podiam ser comprados de livreiros em Londres que se especializaram no ocultismo e pornografia. No século XIX, várias revistas de astrologia e ocultismo foram também publicadas e conquistaram um amplo público popular. Há também evidências de grimórios ou manuais mágicos escritos à mão conhecidos por “Livros Negros” circulando por entre bruxos e magistas. Estes eram similares ao moderno “Livro das Sombras” wiccano, exceto de que, no lugar de rituais sazonais neo-pagãos, eles continham feitiços, encantamentos, informações astrológicas e receitas para remédios herbais.

Porque acreditava-se amplamente que algum cunning folk podia “farejar” praticantes malévolos das artes mágicas, vários dos famosos cunning men foram creditados serem capazes de localizarem ou mesmo controlarem bruxas vivendo em sua vizinhança. Foi apenas um pequeno passo a partir desta crença para a idéia de que alguns desses “mestres das bruxas” ou “mestres bruxos” podessem secretamente ser líderes do coven local. De acordo com contos populares vitorianos, tais covens ou covines encontravam-se na zona rural às luas cheias para cultuar o Velho Chifrudo (o Diabo) e praticar os seus feitiços maléficos contra o povo temente a Deus, esgalgados na cama. Estes podem ter sidos contos romantizados, mas há evidências de que cunning men e wise-women solitários se encontravam com outros na sua localidade para praticar magia, apanhar receitas para feitiços e trocar conhecimentos ocultos. É lógico que, para evitar olhares indiscretos, tais encontros clandestinos seriam realizados em pontos solitários no campo e nas noites quando a lua fornecia mais luz.

E sobre a bruxaria tradicional de hoje e as diferenças entre esta e a wicca moderna? Ao contrário de muitos wiccanos, a bruxa tradicional prefere trabalhar ao ar livre. Por esta razão eles não vão “skyclad” [3], preferindo vestes e capas como capuz sobre suas roupas comuns. É por isso que alguns grupos algumas vezes são chamados de “covens vestidos”. Como seria de se esperar do fato que eles geralmente trabalham ao ar livre, o genii loci ou “espíritos do lugar”, os wights [4] ou espíritos da terra, são muito importantes para suas práticas mágicas como é o conceito de “lugar sagrado”.

O conceito místico de lugar sagrado ou encantado é importante porque, apesar de todas as formas de bruxaria tradicional ter semelhanças, elas também se relacionam como a região onde são praticadas e isso cria diferenças locais na prática e crença. Muitos bruxos tradicionais se consideram como mordomos ou guardiões humanos de antigos sítios como círculos de pedra, menires e túmulos. Eles irão frequentemente trabalhar em ou perto de vestígios pré-históricos que marcam “caminhos dos espíritos”, “estradas fantasmas”, “estradas de cadáver” ou linhas imaginárias que cruzam a zona rural britânica entre estes “centros de poder” naturais. Embora reconheçam o poder mágico inerente à fauna e à flora, bruxos tradicionais são menos propensos a ser sentimentais em relação ao meio-ambiente do que os neo-pagãos. Tradicionais reconhecem que a natureza pode ser “vermelha nos dentes e na garra”[5] e que as leis naturais são baseadas na “sobrevivência do mais forte”.

Ao contrário de covens wiccanos que são dirigidos por uma Alta-Sacerdotisa com seu Sumo-Sacerdote como consorte e a iniciação é sempre do sexo masculino para o feminino ou feminino para o masculino, covines tradicionais são conduzidos por um líder masculino conhecido como Magister, Mestre ou “Diabo”. Ele pode iniciar homens e mulheres na Arte. Isto se deve à polaridade sexual não ser um aspecto tão importante da Arte Tradicional, e por esta razão, muitos grupos tradicionais são conhecidos como “knowledge covines”. O Magister algumas vezes tem um substituto masculino chamado de Convocador que é responsável por organizar as datas, horas e lugares de encontro. A líder feminina de um covine tradicional é conhecida variavelmente como Magistra, Mestra, Donzela ou Virgem, Senhora, Dama ou Rainha do Sabbat. Alguns grupos também possuem um Verdelet ou Homem Verde cujas atribuições é ensinar aos outros coveners os segredos dos poderes mágicos e as propriedades curativas das ervas, árvores e plantas. Outros papéis dentro de um covine podem incluir o Escriba, o Vidente e a Mistress of the Robes. Em algumas tradições, como a moderna Clã de Tubal Caim fundada pelo falecido Robert Cochraine, é a Donzela ou líder feminina que assume a posição de autoridade.

Dentro das práticas operatórias ou mágicas da bruxaria tradicional, pode ser encontrado o conceito de vôo do espírito (projeção astral) para o Sabbath das Bruxas usando o sabbati unguenti ou “unguento de vôo” feito de plantas narcóticas. Técnicas de visão psíquica, transe, mediunidade, “sonho desperto” e possessão espiritual são também usadas para contatar o Outro Mundo em maneiras familiares às formas étnicas de xamanismo. Elementais e espíritos são invocados e há uma comunhão com o reino das Fadas, o uso de familiares, fethches (o duplo astral de uma bruxa) e espíritos-guia, shapeshifiting em uma forma animal, feitiços e maldições, divinação, necromancia e herbalismo (curar com ervas e plantas).

Bruxas tradicionais abordam a divindade de uma forma duoteísta ou politeísta. As deidades ou espíritos reverenciados na Arte Tradicional são os “deuses do crepúsculo”, os ctônicos associados com os poderes de vida e morte, criação e destruição. Eles também são os que a religião ortodoxa descreve como os “poderes das trevas”. É por isso que, historicamente, a bruxa sempre foi considerada uma pária social e uma rebelde religiosa.

A deusa das bruxas possui um aspecto claro e um escuro. Por esta razão, ela é às vezes associada com a lua crescente e minguante ou com a lua cheia e lua negra e também com o destino e o submundo. Ela pode ser personificada mitologicamente como a Dama Hécate, Diana, Frau Holda, Habondia, Lilith e Titania ou a Rainha das Fadas. O Deus-Chifrudo também é bi-facetado como o Senhor da Floresta Selvagem e o Homem Verde em seu aspecto verão e o Senhor da Caçada Selvagem e Senhor da Morte no inverno. Em termos míticos ele pode ser representado como Herne, Wayland, Puck ou Robin Goodfellow, Caim, Tubal-Caim, Silvanus, Lúcifer, Shemyaza ou Azazel e Oberon ou o Rei dos Elfos. Ele aparece em forma animal como um veado, boi, cabra, carneiro ou um cão preto.

Alguns bruxos tradicionais, no entanto, preferem não associar suas deidades com nenhuma mitologia antiga. Ao contrário, se referem a elas obliquamente em termos genéricos como Os Antigos, Owd Lad e Owd Lass, o Homem Velho e a Mulher Velha, o Senhor e a Senhora, O Cornudo, Velho Chifrudo, o Diabo, a Antiga Dama ou mesmo apenas Ele e Ela.

Embora algumas bruxas e bruxos tradicionais e hereditários (aqueles que pertencem a uma tradição familiar) saíram das sombras nos últimos anos, eles são muito mais relutantes do que wiccanos na procura de publicidade. Eles não são suscetíveis de aparecer na televisão durante o dia vestindo roupas de veludo amassado, carregando um crânio de carneiro e um bastão, agitando espadas e cobertos de jóias ocultistas. Eles geralmente vivem na zona rural e eles frequentemente se parecem surpreendentemente normais, usando roupas comuns e se harmonizando com a paisagem. Porque eles possuem um fundo de conhecimento sobre constelações, fauna e flora, história antiga e local e o clima, pessoas comuns podem apenas achar que elas teem um grande interesse em assuntos do campo, natureza e folclore.

O neo-paganismo obviamente atrai muitas pessoas atualmente, especialmente aquelas buscando uma forma política de tendência “verde” de espiritualidade que cultua a natureza. Entretanto, aqueles que seguem a moderna bruxaria tradicional não são “adoradores da natureza” e alguns, nem mesmo se consideram como “pagãos”. Muitos não crêem que a Arte seja uma religião per se e, certamente, não uma “religião natural”. Pelo contrário, eles a consideram como um culto de mistérios oferecendo uma herança antiga de conhecimento mágico e conhecimento oculto (escondido) proibidos. Ela é um caminho místico que conduz a uma iluminação espiritual e, finalmente, à gnose e união com o Divino. Como tal, ela representa uma lanterna brilhante no escuro para aqueles buscadores dedicados que queiram entrar em contato como os antigos Mistérios no mundo moderno.