domingo, 9 de julho de 2017

Mandrágora: Uma abordagem da magia ao seu uso farmacológico.


A Mandragora é uma planta da família das Solanáceas, cuja principal característica é a presença de uma raiz bifurcada que lembra a figura humana, motivando inúmeras lendas e superstições. Faz parte do folclore de algumas regiões onde é mencionado seu poder de fecundidade, de dar riquezas e sorte no amor.
    Existem muitas espécies de Solanáceas de interesse homeopático: Datura stramonium, Hyosciamus niger, Atropa belladonna, Solanum dulcamara, Capsicum annum e Nicotiana tabacum.
Algumas Solanáceas são comestíveis como a batata, a berinjela, o tomate, a pimenta e o pimentão.
Outras tem em comum a presença de alcaloides (hiosciamina, escopolamina e atropina) que são tóxicos por bloquear o sistema nervoso parassimpático, podendo levar a sintomas de envenenamento, que serão abordados oportunamente.
Esses alcaloides tem atividades estimulantes e alucinógenas, o que atrai o interesse de jovens adultos para o uso dessas espécies na preparação de chás entorpecentes.
A toxicidade provém da ação anticolinérgica dos alcaloides que inibem a acetilcolina em efetores autônomos e na musculatura lisa causando vários sintomas, tais como, broncodilatação, inibição das secreções salivares, brônquicas e sudoríparas, dilatação da pupila e bloqueio dos efeitos vagais sobre o coração, levando a um aumento da frequência cardíaca.
A Mandragora é uma erva perene de até 30 cm, com talos curtos e uma raiz tuberosa, grossa, semelhante ao nabo e que frequentemente pode apresentar uma forma que lembra a do corpo humano.
É encontrada em prados úmidos, às margens dos campos e dos rios, na Espanha, em Portugal, na Itália, na Grécia, no Oriente médio e no Himalaia.

Uso da planta

            A Mandragora tem sido usada desde a Antiguidade, existindo relatos que datam há cerca de 1.500 a.C., mas foi durante a Idade Média que alcançou maior aceitação. Existem diversos usos relatados:

Afrodisíaco - sua raiz foi usada para filtros amorosos (aqueles que a ingerissem juntos, permaneceriam apaixonados eternamente) e para combater a esterilidade. Na Bíblia é citada em Gênesis capítulo 30, versículos 14-15-16, onde Raquel disputa com sua irmã Lia, as Mandragoras encontradas por Rubens. Nessa passagem Raquel a utilizou para combater sua esterilidade.

Psicotrópicos - graças aos seus alcaloides a planta foi usada como anestésico e soporífico. Nas tumbas faraônicas, como a de Ramsés III, aparece representado o fruto da Mandragora e o do Opium. Na Palestina preparavam um forte anestésico amargo para crucificados, conhecido como morion.
                                
Venenos - Lucrécia Borgia utilizava a raiz de Mandragora pulverizada e mesclada com vinho para envenenar seus oponentes. Os sintomas do envenenamento consistem em transtornos gástricos, debilidade, abatimento, perda da sensibilidade, podendo culminar em coma e morte.


Histórias, lendas e a magia contida na Mandragora

            Na história da Mandragora houve diversas citações envolvendo desde seu lado de mistério e magia, até seus usos medicinais.Pitágoras indicava que a Mandragora era usada nos cultos de muitos povos como erva mágica, devido ao formato humano da raiz.Algumas lendas devem ser relatadas para que se possa ter uma ideia do que esta planta representava.
            Para sua colheita havia um sério ritual, descrevia-se com uma espada três círculos ao seu redor antes de arrancá-la, devendo-se estar olhando para o poente. Outros desenterravam ao redor da raiz e então a amarravam a um cão que, ao atender ao chamado para sair do local, morria a seguir como vítima propiciatória. Para outros só era possível arrancá-la se antes fosse rodeada com urina de mulher ou sangue de menstruação. Relata-se que a raiz da Mandragora, ao ser desenterrada sem um ritual preparatório, gritava e gemia de tal forma que colocava louco ou matava quem a arrancasse.  

      
            Também acreditava-se que a Mandragora crescia junto às forcas e que seu poder afrodisíaco vinha daí, pois o enforcado ejaculava na terra ao cair pendurado, e nesse local nasciam as plantas.
            Era chamada a raiz da loucura, usada pela bruxa Circe, que transformava homens em animais pela sua magia.  
Na mitologia grega estava relacionada a Hécate, a deusa da magia, da sabedoria, da intuição, e ligada ao arquétipo da parteira (que ajuda no momento do nascimento e também no da morte).
            Na Idade Média a Mandragora era conhecida com alraum (que significa raiz que tem figura humana), sendo considerada um talismã mágico que trazia sorte e bens terrenos.
            No século XVI queimava-se a Mandragora e guardava-se as cinzas envoltas em lenços de linho ou seda, na crença de que seu portador jamais seria infeliz.
            Como remédio foi usada desde a Antiguidade como antidepressivo, sedativo e anestésico em casos de cirurgias. Paracelso conhecia-a como efetiva para calculose renal e sedativo para epilepsia, coreia e tosse. Em outro relato era utilizada para inflamações dos olhos, para adiantar a menstruação e provocar trabalho de parto.
            Dioscórides explicava que a Mandragora colocada no liquor faz melhorar a melancolia, mas dose exagerada levava a morte.
            Na literatura houve citação da lenda em Romeu e Julieta de Shakespeare, na cena em que Julieta irá beber um líquido que a fará parecer como morta, ela adverte para soar uma trombeta antes de retirar a Mandragora do solo, para não ouvir seus brados e enlouquecer.
            Maquiavel escreveu a comédia A Mandragora que foi uma das primeiras do teatro moderno, onde mostra o uso da planta para tornar fértil as mulheres estéreis.
Era utilizada pelos bruxos como unguento antes dos feitiços e também como preparados que produziam terríveis alucinações. As raízes eram talhadas para aumentar sua semelhança com a figura humana, sendo então usadas como amuletos para atrair boa sorte ou para exorcizar demônios.
A raiz é a parte mais curiosa dessa planta, pois cresce como uma batata, muitas vezes bifurcada, ganhando traços semelhantes ao de um pequeno homem. Por conta do curioso formato humano é que a fama "mágica" das mandrágoras se difundiu rapidamente. Pitágoras se referiu a mandrágora como "antropomorfa". O agrônomo romano Lúcio Columela a definiu como "semi-homem". Na ilustração abaixo, do antigo botânico e autor greco-romano Pedanio Dioscórides Anazarbel podemos ver a mandrágora representada com forma humana.
Na Alemanha era costume entre os camponesses talhar e cuidar muito bem das raízes de mandrágora, par usá-las em magias e advinhações. Existia uma crença de que as raízes talhadas com formas humanas responderiam aos questionamentos de seus donos, como se a planta ganhasse vida própria.
Até hoje a mandrágora é usada por magistas, principalmente em magias de proteção, aumento do poder pessoal, coragem e amor. É um poderoso concentrador fluídico e para carregá-la com seu poder pessoal, você pode deixá-la durante três dias embaixo da sua cama, no período da lua cheia. Por ser uma planta européia, é bem complicado conseguir mandrágora no Brasil.


Segundo Raven Grimassi no seu livro “Old World Witchcraft” as flores da Mandrágora simbolizam a alma iluminada que emerge de seu mundo material de experiências. O fruto da Mandrágora representa a alquimia espiritual, o fruto que é produzido através da realização de cada encarnação. As folhas significam as influências que se espalham para fora no mundo através das ações da personalidade que é usado pela alma. Estas são as chaves a serem observadas e temos de colocar para fora e elaborar suas intenções mágicas quando se usa partes da Mandrágora. Na antiga tradição da Mandrágora, há um espírito feminino conhecido como Mandragoritis da Mandrágora. Este espírito supervisiona a planta em si e é chamado quando se trabalha com mandrágoras. Mandragoritis não permanecem no interior da Mandrágora mas em vez controla os espíritos que fazem (e neste sentido pode ser pensada como sua rainha).    Na tradição as plantas possuem uma natureza de gênero. O "mandrake branca" (Mandragora officinarum) é o macho, e o "mandrake negro" (Mandragora autumnalis) é a planta fêmea. Alguns profissionais preferem chamar a fêmea Mandrágora e o macho Mandragoro. Mas também pode ser útil para identificar-se com o sexo de cada Mandrágora usando a nomes masculinos e femininos. A obtenção de uma raiz de mandrágora pode ser muito desafiador. Em algumas lojas de bruxa você pode ser capaz de encontrar raízes de mandrágora secas (às vezes misturadas com folhas). Neste caso, é provável que você não vá saber o sexo da planta.
A mandrágora no cinema no filme "Harry Potter e a Câmara Secreta" as mandrágoras da estufa de herbologia dão um escândalo quando são retiradas do solo pelos alunos de Hogwarts, mas o grito das mandrágoras tem uma explicação folclórica.  Shakespeare, na sua clássica obra "Romeu e Julieta", fez a seguinte referência a mandrágora: "Gritavam como mandrágoras arrancadas da terra que levavam à loucura os mortais que as ouvissem".    
Segundo uma lenda medieval a raiz da mandrágora era como um pequeno homem dormindo dentro da terra e, ao ser retirado de seu descanso, dava um grito tão agudo que era capaz de deixar surdo, enlouquecer e até mesmo levar alguns homens a morte. Com base nessa crença, foram sendo criadas várias técnicas para se retirar a mandrágora do solo sem sofrer com o grito da planta.
Alguns tapavam os ouvidos, afofavam a terra ao redor da mandrágora, amarravam a planta ao pescoço de um cachorro e faziam com que o mesmo corresse, arrancando a raiz do solo.


Temos uma cena do fime "Labirinto do Fauno" onde a mandrágora é posta mais uma vez.

Utilização Homeopática

            Apesar de conhecida desde remotos tempos, houve uma lastimável demora para que se experimentasse a Mandragora homeopaticamente.
            Somente em 1920 é que Allen publicou na Enciclopedia de Matéria Médica Pura as primeiras experimentações da Mandragora, realizadas em 1834 (Dr. Dufresne) e 1874 (Dr. Richardson).
            Em 1951 foi ricamente experimentada por Julius Mezger, que ampliou os conhecimentos homeopáticos a respeito desta planta, tendo experimentado em 30 médicos.
            Raedson fez outra experimentação em 1963/64 em 15 pessoas observando em todas elas o aparecimento de fortes dores articulares, e em 12 vezes dores de cabeça, depressão e dificuldade para concentrar-se.
            Em 1980 Edward Whitmont fez experimentação a partir das folhas sem observar diferença em relação às outras experimentações que usaram a raiz.

Sintomas Mentais

            Do ponto de vista mental, a Mandragora causa peculiar paradoxo de sonolência e entorpecimento junto com intensa excitação, ocorrendo uma irritabilidade apática. Há tendência a depressão, com apatia ou irritação, podendo bruscamente alternar com euforia e alegria. Há estados de deliro e de confusão mental, hipersensibilidade aos ruídos, sentimento de insegurança e ansiedade, falta de concentração e de memória, aversão ao trabalho, mudança de humor, acessos de choro alternado com euforia ou agitação exagerada. São indivíduos hipersensíveis, histéricos, com tendência a estados hipomaníacos ou maníaco-depressivos, acompanhado por sintomas psicossomáticos.
            Os indivíduos Mandragora se comportam como se estivessem sob domínio da magia da planta, ora estão entorpecidos e anestesiados, ficando indiferentes ao prazer e ao trabalho, ora estão excitados, eufóricos, com visões terríveis e fantasmagóricas, agindo como que enlouquecidos.



Do diagnostico a uma abordagem sobre o delírio:

Os sintomas em comum são devidos a inibição do parassimpático, obsevando-se congestão cerebral (mais ativa em Belladonna), cefaléia congestiva e pulsátil, midríase, mucosas secas, taquicardia, hipertermia, obstipação e alternância de excitação e depressão.

•    Mandragora - o delírio é semelhante aquele dos que estão enfeitiçados pela planta. Há loquacidade, com fala sem sentido e incompreensível, agitação psicomotora, inquietude e incapacidade de permanecer parado, embora sem conseguir andar por sentir dormência de membros inferiores e sensação de que está com as pernas paralisadas (lembrando o estado do indivíduo embriagado), sendo que a violência encontrada nas outras solanáceas não compõe sua síndrome mínima.
•    Hyoscyamus - há um delírio maníaco, com movimentos carfológicos: fala com loquacidade de assuntos relacionados às suas atividades habituais (delírio ocupado) e também fala temas religiosos, mudando rapidamente de um tema a outro e tomando atitudes eróticas (o indivíduo tira suas roupas e expõe seus genitais). Este delírio agitado alterna com delírio tranqüilo onde balbucia ou murmura palavras desconexas, predominando este quadro de debilidade e fraqueza, que vai aumentando até cair num estado de estupor, comportando-se como morto.
•    Stramonium - durante o delírio os olhos ficam muito abertos, há agitação, violência e ausência de dor. Fala línguas estranhas, grita, chora ou ri, dança com loquacidade extraordinária, crê estar vendo espíritos e conversa com eles, comporta-se como se estivesse possuído. Ocorre delírio erótico (arranca as roupas) e delírio religioso à noite (canta louvores com desespero por sua salvação).
•    Belladonna - o delírio é muito violento, furioso, bate a cabeça na parede e arranca o cabelo; loquacidade, mudando de um assunto para o outro, sem que haja conexão entre eles e sem concluí-los. Fala sobre temas religiosos, delira sobre cachorros, ladra, deseja morder, alucina que vê gatos, que vê cachorros, que é um cachorro ou outro animal. Pode atacar com violência, com desejo de matar e colocar fogo em tudo.

Ainda cabe lembrar Canabis indica pelo lado alucinógeno (entretanto a agitação dos indivíduos Mandragora é mais marcante), e também Opium onde a alienação, a parca atividade, a hipotonia e hiposensibilidade fazem a diferença, apesar da característica do aspecto narcotizado que se encontra nos dois pacientes.

Com o estudo da Mandragora tem-se à mão uma nova prescrição para aqueles pacientes com artrose, gota e ciática, que já foram tratados com inúmeros medicamentos e sem grande melhora, podendo obter alívio com o uso organicista deste medicamento.
Por outro lado, abre um novo horizonte para aqueles pacientes que vem usando Belladonna ou Hyoscyamus ou Stramonium e que não estão progredindo, apesar do medicamento ter sido bem escolhido. Talvez sejam Mandragora!
Pela experiência clínica o que se sabe é que dos quatro medicamentos a Mandragora apresenta sintomas mais atenuados e com evolução mais crônica dos mesmos.  

REFERÊNCIAS

ALLEN, T.F. The encyclopedia of pure materia medica. New Dehi: B. Jain Publisher, 1920.
BÍBLIA Sagrada. São Paulo: Sociedade blíbica do Brasil, 1988.
BRUNINI, C; SAMPAIO, C. Matéria médica homeopática IBEHE. São Paulo: Mithos, 1982, p. 179-197.
DAVIS, J.D. Dicionário bíblico. 4.ed. Rio de Janeiro: Casa Publicadora Batista, 1973, p. 375-376.
Dra Lia Rachel B. Romano é médica clínica geral, Mestre em Homeopatia
FONT QUER, P. Plantas medicinales - El dioscorides renovado. 5.ed. Barcelona: Editorial Labor S/A, 1981, p. 590-595.
KURY, M.G. Dicionário de mitologia grega romana. 2.ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor Ltda, 1992, p. 83 e 172.
MEZGER, J. Ensinamentos sobre medicamentos homeopáticos. Heidelberg: Editora Haug Verlag, 1985.
NUÑES, D.R. La guia de incafo de las plantas útiles y venenosas de la península ibérica y baleares. Madri: INCAFO AS, 1991, p. 803-805.
_______ Mandragora, quadro farmacológico e experiências. Jornal Geral Homeopático nº 209, 1964, p 107.
GRUMASSI, Raven  - Old World Witchcraft (1 de outubro de 2011)
SHAKESPEARE, W. Romeu e Julieta (ato IV cena III). Rio de Janeiro: Companhia José Aguilar Editora, 1969.
WHITMONT, Edward C. Psique e substância - A homeopatia à luz da psicologia junguiana. São Paulo: Summus, 1989.
TYLER, M. L. Retratos de medicamentos homeopáticos. São Paulo: Livraria Santos Editora, 1992, p.128-138, 334-347, 443-450.
VIJNOVSKY, B. Tratado de matéria médica homeopática. Rio de Janeiro: MUKUNDA, 1987. v.2, p. 339-341.
VOISIN, H. Manual de matéria médica para o clínico homeopata. São Paulo: Andrei Editora, 2ªed, 1987.

sábado, 8 de julho de 2017

A BRUXARIA ANTES DA WICCA


"Witchcraft Before Wicca" por Michael Howard
Traduzido por Iohan sob autorização do autor.

 

Atualmente a imagem popular da bruxaria na mídia de massa e nos livros e revistas é amplamente definida pela Wicca. Como sabemos a bruxaria moderna não se iniciou com Gardner e ela tem uma história oculta antes mesmo dele nascer. A partir dos anos 1800 havia vários avivamentos da bruxaria na Grã-Bretanha baseados em precedentes históricos. Estes foram retirados de crenças e práticas registradas do culto das bruxas medievais e cunning people [1] rurais ou magos populares, avivamentos do paganismo clássico e fontes de magia cerimonial, diabolismo e neo-druidismo e também foram influenciados pelo Rosacrucionismo e Maçonaria. Hoje, tais formas de bruxaria tradicional pré-wiccana são também conhecidas como “Arte Tradicional”, a “Antiga Arte”, a “Velha Arte”, a “Arte Sabbática”, a “Arte Sábia”, “A Arte Sem Nome” e o “Caminho Sinuoso”.

Há uma abundância de evidências a partir de fontes históricas, contos folclóricos, casos judiciais e, mais tarde, reportagens de jornais na Grã-Bretanha, das atividades destes então chamados cunning folks e outros praticantes de magia que eram popularmente considerados como bruxos. Nas crenças e terminologia popular, eles eram também conhecidos como “bruxas brancas”, “magos”, “feiticeiros”, “conjuradores”, “prestigitadores”, “planet readers” (astrólogos) e “hedge doctors” (herbalistas). Estes praticantes de magia operavam amplamente nas áreas urbanas e rurais das Ilhas Britânicas e eram consultados por todas as classes sociais, de trabalhadores rurais aos donos de grandes propriedades rurais e ricos da classe-média nas cidades.

Estes assim chamados “bruxos” ofereciam uma ampla gama de serviços aos seus clientes. Eles eram popularmente creditados de possuir a Segunda Visão ou a habilidade de prever o futuro, exorcizar fantasmas e banir espíritos e poltergeists, lançar feitiços para atrair amor e dinheiro, localizar posses perdidas ou roubadas e pessoas desaparecidas usando divinação ou pela consulta à espíritos e curar humanos e animais doentes usando a “imposição das mãos” ou remédios herbais. Mais importante, na medida em que os seus clientes estavam preocupados, elas podiam contra-atacar os feitiços nefastos lançados pelos então chamados bruxos “cinzas” ou “negros”. Em alguns casos, o cunning folk até mesmo agiu para a população em geral e autoridades como caçadores de bruxas não oficiais. Entretanto, acreditava-se que todos estes tipos de bruxas eram capazes de curar e amaldiçoar, enfeitiçar e curar.

Embora haja semelhanças óbvias com algumas das práticas mágicas modernas realizadas por wiccanos, a maioria dos métodos e técnicas usadas pelas bruxas dos tempos antigos têm pouca semelhança com aqueles utilizados pelos atuais bruxos neo-pagãos. Muitas vezes os cunning folks praticavam uma adoração por ambas as mãos e para os encantos, amuletos, orações e encantamentos, eles costumavam invocar Jesus, a Virgem Maria, a Trindade e a companhia dos santos. Os salmos eram usados para propósitos mágicos como feitiços e eles ainda são em alguns círculos modernos de bruxaria tradicional. Com a chegada da nova fé do Cristianismo e com a supressão das antigas religiões pagãs, objetos como crucifixos, medalhões de santos, a hóstia e a água benta foram amplamente utilizados pelos magistas populares porque acreditava-se que eles possuíam “virtude” ou energia mágica e poder de cura inerente.

O simbolismo cristão era usado em rituais de magia popular envolvendo proteção psíquica, contra-feitiços e cura. Muitos dos antigos encantos pagãos foram cristianizados e alguns santos pegaram os atributos anteriores de deuses e deusas pagãos. Fontes sagradas anteriormente dedicadas a deusas, por exemplo, foram re-dedicadas a Virgem Maria ou a santas femininas como Winifrida e Brigite. Encantos de cura substituíram os nomes de deidades pagãs como Odin, Loki e Thor por aqueles de Deus, Jesus e do Espírito Santo. Muitos dos grimórios usados pelas bruxas e pelos praticantes de magia popular também continha simbolismos judaico-cristão.

Alguns modernos bruxos tradicionais ainda seguem uma adoração de ambas as mãos usando salmos para propósitos mágicos, trabalhando na companhia dos santos e empregando imagens, simbolismo e liturgia cristã, geralmente de forma herética e subversiva. Isto é parecido a algumas práticas similares que podem ser encontradas no vodu, hudu e Santeria. Macumba, ju-ju e abeah na América do Sul e do Norte e África. Em comum com as bruxas e  o cunning folk do passado, a moderna bruxa tradicional também cura ou amaldiçoa na medida do necessário.

Uma quantidade considerável do velho paganismo sobreviveu na crença popular no Povo Bom ou fadas. Há muitos exemplos históricos de bruxas e do cunning folk viajando por uma hollow hill [2] ou montanhas ou visitando um túmulo pré-histórico para encontrar a Rainha de Elfame (“elf home” ou Terra das Fadas). Alguns mortais entram em “casamentos feéricos” com os então chamados amantes do demônio e em troca eles são instruídos em técnicas de cura e divinação, herbalismo e concessão da Visão. Estes dons são passados de geração em geração como no caso dos famosos “fairy doctors” ou médicos de Mydffai no Sul da Gales, que recebiam seu conhecimento herbal de uma “Dama do Lago” local.

Esse conhecimento de encantamentos mágicos, ervas medicinais e conhecimento secreto das plantas foi passado oralmente em família ou por meio de textos escritos. Muitos do cunning folk e bruxas dos séculos XVIII e XIX eram pessoas alfabetizadas e vários dos cunning men mais famosos ou magos eram médicos, professores e até mesmo clérigos. Grimórios como o medieval Clavícula de Salomão e livros sobre magia, adivinhação e astrologia estavam livremente disponíveis. Eles podiam ser comprados de livreiros em Londres que se especializaram no ocultismo e pornografia. No século XIX, várias revistas de astrologia e ocultismo foram também publicadas e conquistaram um amplo público popular. Há também evidências de grimórios ou manuais mágicos escritos à mão conhecidos por “Livros Negros” circulando por entre bruxos e magistas. Estes eram similares ao moderno “Livro das Sombras” wiccano, exceto de que, no lugar de rituais sazonais neo-pagãos, eles continham feitiços, encantamentos, informações astrológicas e receitas para remédios herbais.

Porque acreditava-se amplamente que algum cunning folk podia “farejar” praticantes malévolos das artes mágicas, vários dos famosos cunning men foram creditados serem capazes de localizarem ou mesmo controlarem bruxas vivendo em sua vizinhança. Foi apenas um pequeno passo a partir desta crença para a idéia de que alguns desses “mestres das bruxas” ou “mestres bruxos” podessem secretamente ser líderes do coven local. De acordo com contos populares vitorianos, tais covens ou covines encontravam-se na zona rural às luas cheias para cultuar o Velho Chifrudo (o Diabo) e praticar os seus feitiços maléficos contra o povo temente a Deus, esgalgados na cama. Estes podem ter sidos contos romantizados, mas há evidências de que cunning men e wise-women solitários se encontravam com outros na sua localidade para praticar magia, apanhar receitas para feitiços e trocar conhecimentos ocultos. É lógico que, para evitar olhares indiscretos, tais encontros clandestinos seriam realizados em pontos solitários no campo e nas noites quando a lua fornecia mais luz.

E sobre a bruxaria tradicional de hoje e as diferenças entre esta e a wicca moderna? Ao contrário de muitos wiccanos, a bruxa tradicional prefere trabalhar ao ar livre. Por esta razão eles não vão “skyclad” [3], preferindo vestes e capas como capuz sobre suas roupas comuns. É por isso que alguns grupos algumas vezes são chamados de “covens vestidos”. Como seria de se esperar do fato que eles geralmente trabalham ao ar livre, o genii loci ou “espíritos do lugar”, os wights [4] ou espíritos da terra, são muito importantes para suas práticas mágicas como é o conceito de “lugar sagrado”.

O conceito místico de lugar sagrado ou encantado é importante porque, apesar de todas as formas de bruxaria tradicional ter semelhanças, elas também se relacionam como a região onde são praticadas e isso cria diferenças locais na prática e crença. Muitos bruxos tradicionais se consideram como mordomos ou guardiões humanos de antigos sítios como círculos de pedra, menires e túmulos. Eles irão frequentemente trabalhar em ou perto de vestígios pré-históricos que marcam “caminhos dos espíritos”, “estradas fantasmas”, “estradas de cadáver” ou linhas imaginárias que cruzam a zona rural britânica entre estes “centros de poder” naturais. Embora reconheçam o poder mágico inerente à fauna e à flora, bruxos tradicionais são menos propensos a ser sentimentais em relação ao meio-ambiente do que os neo-pagãos. Tradicionais reconhecem que a natureza pode ser “vermelha nos dentes e na garra”[5] e que as leis naturais são baseadas na “sobrevivência do mais forte”.

Ao contrário de covens wiccanos que são dirigidos por uma Alta-Sacerdotisa com seu Sumo-Sacerdote como consorte e a iniciação é sempre do sexo masculino para o feminino ou feminino para o masculino, covines tradicionais são conduzidos por um líder masculino conhecido como Magister, Mestre ou “Diabo”. Ele pode iniciar homens e mulheres na Arte. Isto se deve à polaridade sexual não ser um aspecto tão importante da Arte Tradicional, e por esta razão, muitos grupos tradicionais são conhecidos como “knowledge covines”. O Magister algumas vezes tem um substituto masculino chamado de Convocador que é responsável por organizar as datas, horas e lugares de encontro. A líder feminina de um covine tradicional é conhecida variavelmente como Magistra, Mestra, Donzela ou Virgem, Senhora, Dama ou Rainha do Sabbat. Alguns grupos também possuem um Verdelet ou Homem Verde cujas atribuições é ensinar aos outros coveners os segredos dos poderes mágicos e as propriedades curativas das ervas, árvores e plantas. Outros papéis dentro de um covine podem incluir o Escriba, o Vidente e a Mistress of the Robes. Em algumas tradições, como a moderna Clã de Tubal Caim fundada pelo falecido Robert Cochraine, é a Donzela ou líder feminina que assume a posição de autoridade.

Dentro das práticas operatórias ou mágicas da bruxaria tradicional, pode ser encontrado o conceito de vôo do espírito (projeção astral) para o Sabbath das Bruxas usando o sabbati unguenti ou “unguento de vôo” feito de plantas narcóticas. Técnicas de visão psíquica, transe, mediunidade, “sonho desperto” e possessão espiritual são também usadas para contatar o Outro Mundo em maneiras familiares às formas étnicas de xamanismo. Elementais e espíritos são invocados e há uma comunhão com o reino das Fadas, o uso de familiares, fethches (o duplo astral de uma bruxa) e espíritos-guia, shapeshifiting em uma forma animal, feitiços e maldições, divinação, necromancia e herbalismo (curar com ervas e plantas).

Bruxas tradicionais abordam a divindade de uma forma duoteísta ou politeísta. As deidades ou espíritos reverenciados na Arte Tradicional são os “deuses do crepúsculo”, os ctônicos associados com os poderes de vida e morte, criação e destruição. Eles também são os que a religião ortodoxa descreve como os “poderes das trevas”. É por isso que, historicamente, a bruxa sempre foi considerada uma pária social e uma rebelde religiosa.

A deusa das bruxas possui um aspecto claro e um escuro. Por esta razão, ela é às vezes associada com a lua crescente e minguante ou com a lua cheia e lua negra e também com o destino e o submundo. Ela pode ser personificada mitologicamente como a Dama Hécate, Diana, Frau Holda, Habondia, Lilith e Titania ou a Rainha das Fadas. O Deus-Chifrudo também é bi-facetado como o Senhor da Floresta Selvagem e o Homem Verde em seu aspecto verão e o Senhor da Caçada Selvagem e Senhor da Morte no inverno. Em termos míticos ele pode ser representado como Herne, Wayland, Puck ou Robin Goodfellow, Caim, Tubal-Caim, Silvanus, Lúcifer, Shemyaza ou Azazel e Oberon ou o Rei dos Elfos. Ele aparece em forma animal como um veado, boi, cabra, carneiro ou um cão preto.

Alguns bruxos tradicionais, no entanto, preferem não associar suas deidades com nenhuma mitologia antiga. Ao contrário, se referem a elas obliquamente em termos genéricos como Os Antigos, Owd Lad e Owd Lass, o Homem Velho e a Mulher Velha, o Senhor e a Senhora, O Cornudo, Velho Chifrudo, o Diabo, a Antiga Dama ou mesmo apenas Ele e Ela.

Embora algumas bruxas e bruxos tradicionais e hereditários (aqueles que pertencem a uma tradição familiar) saíram das sombras nos últimos anos, eles são muito mais relutantes do que wiccanos na procura de publicidade. Eles não são suscetíveis de aparecer na televisão durante o dia vestindo roupas de veludo amassado, carregando um crânio de carneiro e um bastão, agitando espadas e cobertos de jóias ocultistas. Eles geralmente vivem na zona rural e eles frequentemente se parecem surpreendentemente normais, usando roupas comuns e se harmonizando com a paisagem. Porque eles possuem um fundo de conhecimento sobre constelações, fauna e flora, história antiga e local e o clima, pessoas comuns podem apenas achar que elas teem um grande interesse em assuntos do campo, natureza e folclore.

O neo-paganismo obviamente atrai muitas pessoas atualmente, especialmente aquelas buscando uma forma política de tendência “verde” de espiritualidade que cultua a natureza. Entretanto, aqueles que seguem a moderna bruxaria tradicional não são “adoradores da natureza” e alguns, nem mesmo se consideram como “pagãos”. Muitos não crêem que a Arte seja uma religião per se e, certamente, não uma “religião natural”. Pelo contrário, eles a consideram como um culto de mistérios oferecendo uma herança antiga de conhecimento mágico e conhecimento oculto (escondido) proibidos. Ela é um caminho místico que conduz a uma iluminação espiritual e, finalmente, à gnose e união com o Divino. Como tal, ela representa uma lanterna brilhante no escuro para aqueles buscadores dedicados que queiram entrar em contato como os antigos Mistérios no mundo moderno.

domingo, 18 de setembro de 2016

Capítulo 1 - A espera

Barcelona, Espanha, 1635

Um casamento o espera.

Esse único pensamento continuava a assolar e a perseguir a mente de Estevam Studel, era o dia mais feliz da sua vida que ele pudera se recordar em anos. Estava prestes a desposar a única coisa que ele mais amou em sua vida, e isso o inquietava. O tão esperado “para sempre” estava por vir, estava se anunciando timidamente, ia ser agora! Ele lutava constantemente para não deixar que o medo e o nervosismo tomasse conta de seu corpo e assumisse o comando por inteiro. Olhara para o lado sutilmente para afastar esses pensamentos ruins da sua cabeça e se acalmava com a presença dos seus amigos. Membros da Ordem do Corvo, juntos ao lado de Estevam Studel nesse momento tão importante como irmãos de sangue, todos muito bem vestidos com trajes de gala, com espadas embainhadas na cintura que refletia e tilintava a luz do ambiente, coberturas longas e escuras envolviam cada um daqueles homens misteriosos.  

A catedral mais linda que havia na cidade de Barcelona agora se alegrava, suas torres imponentes de arquitetura gótica e triste se enfeitavam e sorriam a espera de Marrie. Nunca uma espera fora tão prazerosa e tão festivamente comemorada como essa. Todos da cidade se amontoavam aos cotovelos em cada corredor e entrada, qualquer brecha de lugar possível para ver a chegada de Marrie Contatie Pos-cass Foivoiag.
 Ela era, sem nenhuma sombra de duvida, a mais formosa e delicada dentre todas as mulheres, de beleza quase angelical encantava e transformava o mundo por onde passava, despertava o amor em qualquer lugar que ia, porém todo esse amor era do seu amado e único homem. A pele mais branca e macia, os cabelos mais negros e longos, ela mais parecia uma noite de inverno do que uma mulher, porém no seu olhar tímido havia o verão. E foi nessa eterna terra do verão que Studel, dia após dia em suas orações antes de dormir desejou passar a eternidade.

Martin Valverde era o melhor amigo de Estevam a anos e assumiu esse posto antes mesmo da adolescência. Ele era sério, um olhar sempre cansado, de poucas palavras e de ar pensativo, muita das vezes apenas escutava pacientemente o amigo falar empolgado a respeito de um determinado assunto e apenas ria. Mas quando abria a boca para expressar a sua opinião a respeito de algo quase sempre jorravam palavras de sabedoria e bons conselhos. Estevam Studel nunca tomou uma atitude sequer na sua vida sem antes consultar a opinião do seu fiel amigo. Mesmo de natureza triste e sempre distante, em todos esses anos Martin Valverde nunca o abandonou, sempre esteve ao seu lado, em todos os momentos.
Ao lado direito de Estevam Studel estava seu melhor amigo na posição que já era de costume. Martin Valverde inclinara a cabeça quase imperceptivelmente e lançara um olhar desconfiado, mediano e em silêncio para a multidão que ali estava. Todos eufóricos como cães raivosos, olhares atravessados cruzavam a catedral como projeteis de flechas inflamadas e piche, espuma branca cripitantes escorriam pela boca dos mais abastados e invejosos da sociedade e caia sobre os ombros de Estevam que estava feliz demais para notar. Mas em meio à euforia e aquela comoção popular apenas um não estava feliz, apenas um não estava sendo levado pelo calor do momento e os olhos de Vlaverde foram arrastados e pregados como estacas firmes na figura sinistra do zelador da família Studel. Sentado com a cabeça um pouco inclinada para baixo, com as pernas bem juntas e com as mãos pesadamente repousantes sobre elas, Victor se personificava em um grande hiato em meio a toda excitação.
Martin Valverde mantivera os olhos fixos em Victor antes de voltar a fecha-los novamente, sua respiração assumia agora um som de mau agouro, algo estava errado, Victor nunca estivera tão obscuro e energeticamente instável, alguma coisa estava muito fora do lugar.
                -Chegou a hora- Disse o velho padre com a voz dolorida e fraca, mas com clareza.
Do nada, as portas rústicas da igreja eram abertas lentamente riscando ainda mais o chão da catedral. Lá estava ela. Os anjos anunciavam ao som de liras a sua chegada, nunca estivera tão linda em toda a sua vida. ­­­­­­Os passos lentos e delicados de Marrie trazia com ela uma beleza dessas de provocar uma fome rara, uma avidez por mais presença e junto ao corpo de Estevam essa atração poética conjugava-se sem querer consumar, um querer estar junto que nunca cessa de fato.
Era noite lá fora, o frio cortava mais profundo que o medo, cortava como laminas contam a carne, mas as pessoas perseveravam firmes, tudo porque Marrie trazia o dia, trazia a alegria para a esperança triste de Estevam, porque ela era alegre e com ela também vinha à esperança.
Cada passo dado era uma entrega definitiva, cada passo ela conduzia mais e cada vez mais Estevam para perto da fonte de todas as coisas, e era lá que o desejo se origina. E nada míngua com o passar do tempo e mesmo acreditando não ter mais espaço, cresce, flui, floresce, se imensa e esparrama clareando o que antes era escuro. Cada vez mais e mais Estevam era consumido pela vontade de dizer do amor que tinha e da ternura delicada que saia dos lábios de sua amada.
Ele via em nela cabos de mar, curvas no longínquo, e vastas súbitas margens de paisagens. Estevam Studel sempre  flutuava na vida, ele tinha a alma dos grandes navegantes e olhava para o porto a sua frente, repousante ao seu lado todas as noites quando dormia. Ver aquele porto misterioso sobre a solidão do mar e sempre querer atracar. Do além-mar, a voz do porto tornavam-se em uma voz absoluta sem boca, voz humana vinda de sobre, de dentro e de acima da solidão dos mares, e ela chamava por ele, chamava por ele e cada vez mais chamava por ele.
Martin Valverde agora largava um sorriso de canto de boca, seus olhos agora se relaxavam levemente. Com a mão direita dentro do bolso ele apertava na curva de sua mão suada a carta que Marrie escrevera para Estevam antes do casamento e confiara a ele para entregar ao seu amigo na primeira oportunidade que tivesse.

Gritos estridentes de pavor ecoavam pela catedral. 

Era Victor, parado no corredor bem no meio da igreja e agora apontara, com as mãos bastante trêmulas, uma arma em direção a Marrie. Instintivamente Valverde e todos os amigos de Estevam deslizavam suas mãos para o interior de suas vestes e seguravam firmes suas respectivas armas prevendo um futuro conflito. Martin Valverde era um homem de hábitos estranhos e muito bem relacionado na sociedade. Ele olhara para o canto e via o seu capacho mais próximo de braços cruzados, em pé e encostado na parede. Era Krun, um homem corpulento, de cabelos ruivos cor de fogo, aparência selvagem, ombros largos, um artista na arte de matar. Valverde contratou assassinos que livrou da forca para fazer a segurança da sua família e ele apelidara esse de “cuca vazia” devido ao seu dom de partir o crânio de homens até o meio dos olhos.
Valverde fizera um sinal de comando com a cabeça para Krun dando sinal verde para ele fazer o que tiver que ser feito. E então, mais do que imediatamente ele começara a andar, deslizava sorrateiramente como uma cobra entre as pessoas, com um olhar sempre fixo no alvo e com o seu punhal já em mãos.
-Eu te amo Marrie! Eu sempre te amei todo esse tempo!-Gritava Victor em voz rouca e mente fervilhante em confusão.
Todos agora prendiam a respiração como que se engolissem o ar. Um pânico se instalara em todos e Estevam ainda tentava compreender o que estava acontecendo. Marrie se virava de costas para o seu noivo que estava a certa distancia dela e de forma serena sorria para Victor pedindo um pouco de calma.   
Krun estava a cinco passos atrás de Victor, ele tivera um momento de hesitação e lançou um olhar para Valverde esperando por novas instruções, que inclinou a cabeça em aprovação.





terça-feira, 6 de setembro de 2016

Herbalismo e o Histórico das Plantas Medicinais



Quando os pesadelos que conhecemos como cidades ainda não haviam surgido nos séculos passados, vivíamos em harmonia com a Terra e usávamos sabiamente seus segredos. Muitos conheciam as antigas magias das ervas e das plantas. O conhecimento foi passado adiante de geração em geração, e desta forma, o saber foi amplamente movimentado e utilizado. A maioria dos camponeses conheciam uma erva que era uma poderosa proteção contra o mal, uma certa flor que produzia sonhos proféticos, e talvez um ou dois encantamentos de amor infalíveis. As Bruxas tinham suas próprias operações complexas com a magia herbal, assim como os magos e alquimistas. Logo, uma densidade de conhecimento mágico acumulado ao redor de simples ervas que crescia ao longo de córregos, em prados verdes e no alto de solitários penhascos apareceu. Muitos de nossos ancestrais, entretanto, olhavam para as estrelas distantes da Terra e sonhavam com coisas mais grandiosas. Na corrida em direção a perfeição mecanizada, a humanidade tornou-se órfã da Terra, e muito da antiga tradição foi esquecida.

Felizmente, não foi completamente perdida. As Bruxas tornaram-se as guardiãs dos segredos da Terra; deste modo, elas foram vistas com medo por aqueles que viraram as costas para os Antigos Caminhos. O terror e o ódio forçaram as Bruxas a se esconder, e por séculos seus segredos permaneceram intocáveis. Quando as antigas bruxas morreram, muitos de seus segredos morreram com elas, pois, conforme os séculos passavam, havia cada vez menos os que se importavam em aprender as artes da magia. Hoje estamos experimentando um ressurgimento da consciência com a terra. As organizações ecológicas proliferam. A reciclagem é um negócio estrondoso. As pessoas estão rejeitando os alimentos químicos e preservados artificialmente por alimentos mais saudáveis. Ervas que antigamente não eram
veneradas mais uma vez reaparecem por si próprias. Entretanto além das especulações e conselhos, a arte mágica do herbalismo tem sido amplamente deixada inexplorada e inexplicada.

Os conhecimentos sobre herbologia sobre os quais conversaremos são uma tentativa em preencher a grande lacuna que falta dentro do conhecimento herbal. Embora estas instruções tenham sido longamente a ocupação das Bruxas e suas famílias, tudo que se faz necessário para ser bem sucedido na prática do herbalismo mágico é um ardente desejo de melhorar sua vida e a vida daqueles que você conhece e ama. Estas orientações são um guia completo e prático. Sem nenhuma ligação esotérica ou obscura, devem servir bem como introdução á magia herbal – os aspectos positivos da magia herbal. Também discutiremos mais tarde o uso das ervas de “banimento”, sem nenhum envenenamento, maldição, controle, influência, amarração ou qualquer tipo de informação semelhante sobre magia negativa não está inclusa aqui, uma vez que tais práticas não têm lugar na magia divina dos herbalistas.

Na magia, especialmente na magia herbal, uma erva é uma planta valorizada por suas vibrações ou energias. Embora as “ervas” neste livro incluam algas marinhas, cactos, árvores, frutas e flores que uma pessoa não possa normalmente considerar como ervas Avanços recentes na ciência tem nos capacitado a registrar fotograficamente estas vibrações, apesar do uso da fotografia kirilian. Deste modo, a ciência mais uma vez justifica a magia. Ainda existem Bruxas que caminham descalças sobre a Terra e ouvem o sussurro das árvores e se adornam com ervas sagradas enquanto a Lua as observa sob suas cabeças. O que resta de suas lendárias tradições é fragmentado; uma colcha de retalhos de crenças, conhecimento e rituais. Estas reminiscências, no entanto, são tão eficazes hoje quanto eram quando surgiram em outras eras mágicas. A magia herbal é um dos mais fáceis, seguros e alegres métodos de restabelecimento das raízes da terra para recobrar uma vida natural e saudável. Ela toca a essência da vida por si mesma com rituais simples e alguns objetos.

A magia está contida nas ervas – e  dentro de você. A magia herbal é uma cooperação entre a planta e o homem, entre o céu e a terra, entre o microcosmo e o macrocosmo – uma união de energias forjadas para produzir mudanças através de métodos que os observadores ou as pessoas de fora vêem como “sobrenatural”. Estes meios são mais naturais, mais antigos do que as religiões computadorizadas e os valores sociais pré fabricados do mundo atual que podem escapar a muitos, mas este é o meio pelo qual a magia opera. Não é para todas as pessoas. Não existem votos a serem jurados, grupos para se unir, e demônios a serem venerados. E, embora existam algumas regras simples a serem seguidas que asseguram melhores resultados, a magia pode ser simples ou complexa de acordo com seu desejo. O que falamos aqui é sobre o poder da magia das ervas. O conhecimento contido nele foi preservado de modo que possamos melhorar nossas vidas. Use este sagrado conhecimento com amor.



“... E o seu fruto servirá de alimento e a sua folha de remédio”.
Velho Testamento - Ezequiel, 47:12.

HISTÓRIA DAS PLANTAS MEDICINAIS

Desde o ano 3000 a.C. têm-se informações que a China dedicava-se ao cultivo
de plantas medicinais. O Imperador Sheng-Nung utilizou uma série de plantas em seu próprio corpo, para saber o efeito que provocavam. Entre tantas destacou o uso da raiz de ginseng, anunciando ser a mais fabulosa das ervas e que favorecia a longevidade. Escreveu um tratado denominado PEN TSAO, verdadeira farmacopéia que englobava todo o saber relacionado com o uso de plantas como medicamentos. Um antigo texto chinês extraído da Farmacopéia de Shen-Nung diz o seguinte sobre o ginseng:

“Tem sabor adocicado e sua propriedade é ligeiramente refrescante, cresce nos desfiladeiros das montanhas.
É usado para reparar as cinco vísceras, harmonizar as
energias, fortalecer a alma, afastar o medo, remover substâncias tóxicas, a brilhar os olhos, abrir o coração e melhorar o pensamento. Uso contínuo dará vigor ao corpo e prolongará a vida”.

A história conta que o Imperador viveu 123 anos, sempre experimentando as
ervas e tomando ginseng, erva que nos dias atuais é muito utilizada para regeneração dos tecidos, melhoria do funcionamento de algumas glândulas, para o rendimento físico e mental, dores de cabeça, amnésia, como apoio no tratamento de grande número de doenças do coração, dos rins e dos sistemas nervoso e circulatório. Em seu "Cânone das Ervas" foram mencionados 252 plantas. Em 2798 a.C., o Imperador Huang Ti, formalizou a Teoria Médica no Nei Ching. No século VII, no governo da dinastia Tang, foi impressa e distribuída uma revisão do "Cânone de Ervas.
Li-Chi-Chen (1578), completou seu “Compêndio de Matéria Médica” onde reuniu todos os conhecimentos existentes no campo da farmacologia, com 1954
prescrições médicas, relacionando mais de 1000 drogas de origem vegetal, animal e mineral, distribuídos em 16 capítulos. Placas de barro de 3.000 a.C. registraram importações de ervas para a Babilônia. Por volta de 2.000 a.C. aconteceram às trocas com a China, de ginseng, a erva da longevidade. A farmacopéia babilônica abrangia 1400 plantas.
O primeiro médico egípcio conhecido foi Imhotep ( 2980 a 2900 a.C.), grande curandeiro, que utilizava ervas medicinais em seus preparados mágicos. Os Papiros de Ebers, do Egito, foram um dos herbários mais antigos que se tem conhecimento, datando de 1550 a.C., e ainda está em exibição no Museu de Leipzig ( são 125 plantas e 811 receitas).
Nessa mesma época os médicos indianos desenvolviam avançadas técnicas cirúrgicas e de diagnóstico e usavam centenas de ervas nos seus tratamentos. Os hindus consideram as ervas como as "filhas prediletas dos deuses".
Sabe-se que desde 2300 a.C., egípcios, assírios e hebreus cultivavam diversas
ervas e traziam tantas outras de suas expedições. Nesses tempos, as plantas eram muitas vezes escolhidas por seu cheiro, acreditavam que certos aromas afugentavam os espíritos das enfermidades. Essa crença continuou até a Idade Média, onde os médicos usavam no nariz um aparelho para perfumar o ar que respiravam. Os egípcios utilizavam além das plantas aromáticas, muitos outras com efeitos diversos. Também na arte de embalsamar os cadáveres para guardá-los da deterioração, experimentaram muitas plantas. Diocles (400 a.C.) escreveu o primeiro livro sobre ervas conhecido no Ocidente. Foram os gregos os primeiros a sistematizar os conhecimentos adquiridos até então.Hipócrates (460- 361 a.C.), denominado “Pai da Medicina”, reuniu em sua obra "Corpus Hipocratium" a síntese dos conhecimentos médicos de seu tempo, indicando para cada enfermidade o remédio vegetal e o tratamento.
Teofrasto (372-285 a.C.), em sua “História das Plantas”, catalogou 500 espécimes vegetais. No século XIII a.C., Asclépio, curandeiro grego, grande conhecedor das ervas, concebe um sistema de cura, (também chamado de Esculápio de Cos) fundando o primeiro spa que se tem conhecimento, em Epidauro. Era baseado em banhos, chás, jejum, uso da música como terapia, jogos e teatros. Tales de Mileto e Pitágoras compilaram essas receitas (Oka, 1998).
O conhecimento grego sobre as ervas foi adquirido na Índia, Babilônia, Egito e até na China. Crateus, século I a.C., publicou a primeira obra - 0 Rhizotomikon sobre as plantas medicinais, com ilustrações. Dioscórides, médico grego, no século I da Era Cristã, enumerou em seu tratado, "De Materia Medica”, mais de 500 plantas medicinais e seus usos. Outra preciosa contribução foi de Pelácius, médico de Nero, que escreveu seus estudos sobre plantas medicinais, incluindo mais de 600 espécies diferentes que constituíram referência por 15 séculos.
Plínio, o Velho, que também viveu no século I da nossa era, catalogou sua obra, “História Natural”, em 37 volumes, e em oito deles descreve o uso pelos romanos das espécies vegetais úteis à medicina. No início da era cristã, na Índia, destacou-se o texto Vrikshayurveda, de Parasara, autor de muitos livros, inclusive sobre plantas medicinais. Galeno, médico grego, segundo século depois de Cristo, foi o primeiro a tratar as cãibras com ruibarbo, erva importada da China. Colecionou e descreveu muitos medicamentos e fórmulas cujos métodos de preparação deram origem à “farmácia galênica”.
Devido a eventos históricos como ascensão e queda do Império Romano e fortalecimento da Igreja Católica (que não via com bons olhos a aprendizagem científica e encarava a doença como um castigo), o estudo das plantas medicinais na Idade Média ficou estagnado por um longo período. Muitos escritos gregos foram esquecidos ou perdidos e recuperados em parte no início do século XVI, por meio de versão em árabe. Ocorreu ainda o triunfo da "Medicina dos Signos", que postulava a cura de determinadas partes doentes do corpo por meio de plantas que lhe fossem semelhantes. Durante o século X apareceu "The Leech Book of Bald and Cild", escrito por um curandeiro anglo-saxão, no qual misturava os conhecimentos escritos por Dioscórides, com os rituais que usavam na época e com receitas de magia e medicina provenientes do Oriente. Apenas alguns mosteiros, no século XI, na Europa, mantiveram a literatura medicinal e algumas mulheres de aldeias remotas. Fora desses locais eram utilizadas em rituais mágicos. Surgem as Escolas de Salerno e Montpellier (séc.XIII) e, a partir delas, as universidades, abrindo para o leigo as portas do conhecimento até então reservado aos monges e religiosos. A universidade de Salerno tem sua obra mais importante o “Regimen sanitatis salernitatum”, que trata das ervas medicinais. A bd-Allah Ibn Al-Baitar, que viveu no século XIII e foi o maior especialista árabe no campo da botânica aplicada à Medicina, produziu obra valiosa, descrevendo mais de 800 plantas. Em 1484 foi impresso o primeiro livro sobre cultivo de ervas medicinais, que praticamente era uma cópia dos escritos do século IV, contendo material descrito por Dioscórides. A cópia mais antiga dos escritos de Dioscórides é um manuscrito bizantino do século VI chamado “Codice vindobonensis”, considerado o documento médico mais importante até o aparecimento da obra de Leonardo Fuchs chamada “Historia stirpium”, que data de 1542.
Grande quantidade de livros começou a aparecer em toda Europa, com a invenção da imprensa. Em quase todos eram descritas partes das obras de Dioscórides, Galeno, Hipócrates, Aristóteles, com ilustrações copiadas diretamente dos manuscritos da antiguidade.
Só em 1542, na Alemanha, foi elaborada a primeira farmacopéia, uma lista de 300 espécies de plantas medicinais provenientes de todas as partes do mundo. No final do século XVI, já haviam sido organizados jardins botânicos em várias universidades. Até o século XVI, os tratados de Botânica, então denominados “herbários”, consideram as plantas por suas virtudes medicinais. A ascensão do prestígio da fitoterapia pode ser traduzida pela difusão da publicação de herbários como pela criação da primeira cátedra de botânica na Escola de Medicina de Pádua, em 1533. Em 1551 foi escrito o primeiro texto em inglês "Nieuwe Herball", de William Turner, incansável viajante e grande coletor de plantas (Hoffmann et al. 1992). Em 1563, Garcia da Orta, português que viveu na Índia, edita em Goa a obra Colóquios dos Simples, das Drogas e Cousas Medicinais da Índia.
John Gerard, em 1597, incluiu em seu "Herbário" de 1600 páginas, plantas provenientes do Novo Mundo e preservou os conhecimentos botânicos dos monges medievais. No século XVII, o tratado “Herbário Completo”, do inglês Nicolas Culpeper, relaciona as virtudes das plantas com os planetas.
John Parkinson escreve dois importantes livros sobre a botânica e seus usos medicinais: "Thetrum Botanicum" e "Paradisi in Sole Paradisus Terrestris".
Durante o século XVIII, Sir John Hill escreve "Virtudes de las Hierbas Britânicas", um trabalho inédito e bem ilustrado. Quase no final deste século, Samuel Hahnemann deu a conhecer sua teoria sobre a homeopatia, que aconselhava o tratamento das enfermidades com pequenas quantidades de substâncias derivadas das plantas, as quais eram ministradas aos pacientes como uma vacina.
Os alquimistas, dentre eles Paracelso, impulsionaram a arte de curar com plantas, lançando as bases da medicina natural. Ressaltavam a importância de seguir-se
um ritual na preparação de ervas a serem utilizadas na terapêutica e que o médico deveria estimular a resistência do organismo, usando remédios naturais e procurando atingir o máximo de capacidade de cura do próprio doente.
Durante o século XIX, o uso das ervas ficou mais restrito e cresceu o uso dos medicamentos obtidos através de processos químicos industriais. Entretanto, os livros sobre ervas continuaram aparecendo. C. F. Millspaugh, publicou em 1887, nos Estados Unidos, um livro com as plantas européias cultivadas na América, além de muitas ervas nativas do Novo Mundo.
Nos anos que ocorreram as guerras mundiais, o interesse pelas plantas medicinais voltou devido à necessidade de obter remédios eficazes para múltiplas enfermidades, visto que toda a economia dos países envolvidos na guerra estava destinada à produção de material bélico. Apareceu, no período entre guerras, um tratado da inglesa M.Gneve, "Um Herbario Moderno", que trata das propriedades medicinais, culinárias, cosméticas e econômicas, bem como o cultivo e o modo de uso das ervas. O Primeiro herbário das Américas é o Manuscrito Badanius, o herbário asteca, do século XVI, em Nahuatl. No Brasil, o uso das plantas como medicamento teve influência das culturas indígena, africana e européia.
Entre os índios, o pajé ou feiticeiro utilizava plantas entorpecentes para sonhar com o espírito que lhe revelaria a erva ou o modo de curar o enfermo e também pela observação de animais que procuram certas plantas quando doentes. Um exemplo é o uso da raiz de ipecacuanha, pelos animais, para alívio de cólicas e diarréias.
As primeiras notificações fitológicas brasileiras são atribuídas ao padre José de Anchieta e a outros jesuítas. Alguns manuscritos narravam “pescarias miraculosas”, onde os aborígenes narcotizavam os peixes com o uso de cipós.
Os indígenas brasileiros acreditavam em fatores sobrenaturais, quando se tratava de doenças sem causa externa identificável como ferimentos, fraturas e envenenamento. Os pajés associavam o uso de plantas a rituais de magia e seus tratamentos eram, assim, transmitidos oralmente de uma geração a outra.
Para os africanos, quando alguém adoecia é porque estava possuído pelo espírito mau e um curandeiro se encarregava de expulsá-lo por meio de exorcismo e uso de drogas.
A influência européia teve início no Brasil com a vinda dos primeiros padres da Companhia de Jesus chefiados por Nóbrega, em 1579, os quais chegaram com
Tomé de Souza para catequizar os índios. Formularam receitas chamadas “Boticas dos Colégios”, à base de plantas para o tratamento de doenças.
Informes sobre a medicina jesuítica nos primeiros séculos da nossa colonização mostram a importância das plantas como medicamento. Segundo Camargo (1998), a princípio os medicamentos vinham do reino já preparados. Mas as piratarias do século XVI e as dificuldades da navegação impediram, com freqüência, a vinda dos navios de Portugal e era preciso reservar grandes provisões, como sucedia em São Vicente e São Paulo ao tempo da Conquista do Rio de Janeiro (1565). A necessidade local obrigou os jesuítas a terem provisão de medicamentos; e também logo a procurarem os que a terra podia dar, com suas plantas medicinais, que começaram estudar e utilizar em receitas próprias, como as do irmão Manuel Tristão, em 1625. Foi o primeiro boticário ou farmacêutico da Companhia no Brasil. Deixou uma breve “Coleção de Receitas Medicinais” conhecida por Purchas, em 1625. Ficou famosa a Triaga Brasílica, que aplicava em várias doenças, e cuja fórmula era mantida em segredo pelos jesuítas.
Também Pedro Luiz Napoleão Chernoviz elaborou, baseado em conhecimentos adquiridos e em publicações européias, um Formulário e um Dicionário, que passaram a ser os guias médicos dos lares brasileiros. A Revista do Arquivo Municipal de São Paulo cita que os índios utilizavam a batata-de-purga para limpar o aparelho digestivo e a ipecacuanha curava tudo, era uma verdadeira panacéia. Os europeus viram uma flora exuberante e perceberam que os índios sabiam fazer uso da mesma. Levaram tudo que podiam e trouxeram ervas, como a camomila, calêndula e alfazema, que se aclimataram muito bem. Essas influências constituem a base da medicina popular que há algum tempo vem sendo retomada pela medicina natural, visando não só a cura de algumas doenças, mas restituir o homem à vida natural. A primeira história natural brasileira, elaborada por Wilhem Pies e Georg Marcgraf, integrantes da comitiva de Maurício de Nassau, incluía um herbário de plantas medicinais (Historia Naturalis Brasiliae). Os paulistas com suas “Entradas e Bandeiras” foram os primeiros a utilizarem a medicina herbalista, e mais tarde os negros escravos. Entre 1779 e 1790, Frei Veloso faz um levantamento da capitania do Rio de Janeiro e arredores, resultando os livros “Plantas Fluminensis” e “O Fazendeiro do Brasil”. Karl Friedrick Von Martius, chegou ao Brasil em 1817, viajou por vários estados brasileiros, como São Paulo, Minas Gerais, Maranhão e Amazonas. Coletou cerca de 6500 espécies, surgindo daí sua obra “Flora Brasiliensis”. No mundo moderno, um de seus maiores botânicos, Richard Schultes afirma que o conhecimento indígena do poder curativo das plantas é uma ciência muito antiga em que as doenças do corpo e da alma estão intimamente ligadas. Os curandeiros (xamãs) entendem que a saúde depende do perfeito equilíbrio do corpo, dos sentidos, da mente e do espírito, para que a energia possa fluir e obter resultados satisfatórios. As plantas sempre estiveram ligadas ao homem e sempre estarão sendo utilizadas por ele, tanto na cura dos males como em outros múltiplos usos.







Fonte:
Schirlei da Silva Alves Jorge




(Scott Cunningham - Magical Herbalism)